CPI do Cachoeira começa com alvos de várias cores

Por Eduardo Militão – congressoemfoco.com.br

Espera-se para as 10h30 desta quinta-feira (19), no plenário da Câmara, a leitura do requerimento de criação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Carlinhos Cachoeira. O foco da apuração começa pelas relações e negócios do bicheiro Carlos Augusto Ramos com o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) e a construtora Delta, uma das maiores do país, responsável por várias obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal. De saída, os primeiros passos da investigação já deverão deixar um forte rastilho de pólvora. O mapeamento das verbas recebidas pela empreiteira e dos pagamentos a fornecedores dela, incluindo empresas de fachada, levam a Polícia Federal a suspeitar que o dinheiro desviado pode ter alimentado também campanhas eleitorais em 2010. Os indícios levantados têm potencial para atingir os estados de Goiás, dirigido pelo PSDB, mas também o Distrito Federal, comandado pelo PT, e até talvez o governo federal da presidente Dilma Rousseff.

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Parlamentares ouvidos pelo Congresso em Foco não descartam que o caminho do dinheiro, a partir dos esquemas ilegais de Cachoeira mas também dos contratos da Delta, pode se tornar uma das principais linhas de investigação da CPI. E o que já se sabe é que a rede política montada pelo bicheiro é bastante ampla e não diferenciava oposição de governo. Portanto, a CPI, avaliam, tem potencial para provocar os mais variados estragos políticos. Ou, diante da amplitude de fatos e de personagens envolvidos, acabar caindo no vazio, tornando-se superficial e inconclusiva.

Materialidade

Na semana que vem, devem começar os trabalhos da CPI, provavelmente com um senador do PMDB presidindo-a e um deputado do PT relatando-a. Para o deputado Fernando Francischini (PSDB-PR), um dos futuros integrantes da comissão, o mais importante a ser apurado é de fato a movimentação financeira, potencial fonte de recursos para caixa dois de campanhas eleitorais, a partir da Construtora Delta. “O mais importante é a questão do dinheiro da Delta, a maior empreiteira do PAC, repassando para empresas fantasmas ligados ao Cachoeira. Nós temos aí uma materialidade. Existe indício de crime de corrupção. Autoridades poderiam estar recebendo o dinheiro pelas obras, e esse dinheiro pode ter alimentado caixa dois de campanhas”, disse ele ao Congresso em Foco. Francischini é delegado da Polícia Federal. Para o deputado, é preciso quebrar o sigilo fiscal da Delta e das pessoas ligadas a ela para rastrear todo o caminho dos recursos.

Além de Francischini, a CPI poderá ter entre seus integrantes outro delegado da Polícia Federal, o Delegado Protógenes (PCdoB-SP), um dos primeiros a exigir uma CPI para apurar o caso. Na sua avaliação, o ponto principal das investigações será estabelecer a relação de criminosos com o poder público. Protógenes entende que juridicamente os fatos estão bem conduzidos pela polícia e pelo Judiciário. O papel do Congresso é fazer um julgamento político do caso. “Politicamente, isso ainda não foi tangenciado. Isso nos preocupa dentro do Congresso Nacional”, afirmou ele ao site.

Protógenes compartilha com o líder do DEM, ACM Neto (BA), a preocupação de que a comissão seja diferente das últimas que aconteceram ou que sequer chegaram a ser criadas. No segundo mandato do governo Lula, as CPIs não apontavam culpados que tivessem relação com o Planalto. Internamente, a Operação Satiagraha, dirigida por Protógenes antes de ser eleito parlamentar, não gerou apuração no Parlamento. Na Justiça, teve suas provas e condenações anuladas.

ACM Neto entende que o caminho do dinheiro pode ser o principal foco de apuração, mas lembra que a investigação deve ser ampla e sem restrições. A legenda já mapeou as estruturas do caso descoberto pela PF para ver o que ainda precisa ser apurado pela CPI, e já tem um conjunto de requerimentos prontos para sacar. São pedidos de documentos e de quebras de sigilo. Convocações devem ser feitas com cuidado para não haver perda de tempo e audiências recheadas de inverdades que não podem ser confrontadas com documentos já nas mãos dos deputados e senadores. “Até o Waldomiro Diniz podemos convocar, mas não queremos pirotecnia”, afirmou ACM Neto.

Batalha política

O líder do PT, Jilmar Tatto (SP), também apóia um caminho que se inicie pela análise de documentos e não com longas e muitas vezes improdutivas tardes ouvindo testemunhas e acusados. Apesar de dizer que a movimentação de dinheiro que pode ter irrigado campanhas “não é objeto da investigação”, o petista não se nega a apurar a suspeita da Polícia Federal, que pode atingir várias cores partidárias.

Para ele, o que mais lhe chama a atenção são as citações a jornalistas e membros do Ministério Público e do Judiciário na operação da PF. “Tá chamando a atenção isso, porque empreiteira fazendo maracutaia, aditivo, essas coisas… o TCU está direto fazendo isso”, justificou Tatto. Sobre jornalistas, um dos alvos que o PT já declarou querer atingir é a revista Veja, que o partido avalia ser sua adversária. O partido quer investigar menções feitas ao chefe da sucursal da revista em Brasília, Policarpo Júnior. Há menções no inquérito de que Cachoeira seria fonte de informação do jornalista. Os petistas suspeitam que vídeos e gravações usados em reportagens – como o vídeo do ex-diretor dos Correios Maurício Marinho pedindo propina, que levou o presidente do PTB, Roberto Jefferson, a denunciar o mensalão – tenham saído do esquema de arapongagem de Cachoeira.

A diferença das opiniões de Tatto e ACM Neto mostra o embate partidário que se verificará em torno do foco da CPI. Francischini, por exemplo, fala em apurar as consultorias que o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu fez para a Delta. Mas ele e ACM Neto desconversam ou minimizam as denúncias feitas contra o companheiro de partido Marconi Perillo, que governa Goiás. Já Tatto centra-se na crítica ao “moralismo udenista” de Demóstenes Torres, que pregava um padrão de comportamento ético que, à vista do que mostram as investigações da PF, ele mesmo não tinha. E acha que o governador do DF, Agnelo Queiroz, que também aparece nos inquéritos da PF, não deve ser investigado.

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