Copom afronta o país ao elevar a taxa Selic pela quinta vez consecutiva

Taxa real a 6,8%, é disparada a maior do mundo

Há um aspecto que torna-se mais claro – e mais relevante – com o quinto aumento de juros efetuado pelo Banco Central após a posse da presidente Dilma: a própria sabotagem ao governo.

Toda essa conversa inútil de que tais aumentos de juros são para “garantir” a política da presidente; que eles objetivam assegurar as “conquistas” sociais; que a intenção é “proteger” a economia florescente sob a batuta da presidente – afirmações que o sr. Tombini vive repetindo – só fazem enfatizar esse aspecto sabotador, e, de resto, criminoso. Qual é o sabotador que não justifica sua sabotagem pelos benefícios que ela proporcionará ao sabotado? O adulador não é o traidor de amanhã: é o traidor de hoje.

Na verdade, é o que poderíamos esperar: o que é essa cúpula do BC, senão um magote tucano encravado na administração da presidente Dilma? O voto, no Brasil, é secreto, mas quem tem alguma dúvida sobre qual foi o candidato em que esses elementos votaram nas últimas eleições? Ou de qual projeto queriam para o Brasil?

Também é verdade que o principal objetivo deles é passar dinheiro público, cada vez mais, aos bancos. Mas, para isso, o governo que se lasque – aliás, o governo somente serve para atrapalhar. Melhor ainda seria a situação para eles, se conseguissem jogar no mar o governo – e, sobretudo, a presidente. É, aliás, o que estão tentando fazer no momento.

Que existam no governo também os Mantegas – assim como já existiu o Palocci – apenas faz ressaltar que a corrupção financeira vai além do Banco Central. Esses elementos não estão aumentando juros, travando o crescimento do país, ou usando bilhões das reservas monetárias do país para comprar títulos da dívida dos EUA, que estão valendo um pouco menos do que papel higiênico no supermercado da esquina, apenas porque isso é bom para os bancos e outros especuladores.

Estão fazendo isso porque acham que é bom para si mesmos: todos querem virar banqueiros ou funcionários muito bem remunerados, se já não o são, da máfia financeira – de preferência, da estrangeira. Todos querem enriquecer, comprar patrimônio que um trabalho honesto não lhes permite, em suma, ficar acima, muito acima, do povo – e querem fazer isso com a vida fácil: vendendo-se aos beneficiários dos seus aumentos de juros e demais medidas muito pouco prudenciais.

Diante de tais aspirações, o governo Dilma que se exploda. Se arrumar na vida – falemos claro – é inseparável da sabotagem a um governo que tem objetivos que não são os deles.           

Essa, aliás, é a grande corrupção que existe no país. Não é qualquer coisa ocorrida no Ministério dos Transportes ou o patrimônio do Ricardo Teixeira, que nem membro do governo jamais foi. Por isso, a mídia dos bancos só fala dessas mesquinharias.

Vejamos as taxas reais de juros, que são as que realmente interessam aos bancos, pois seus ganhos são a taxa nominal menos a inflação, isto é, precisamente, a taxa real.

Em dezembro de 2010, a taxa real básica estava em 4,8%.

Esta taxa foi alcançada após a manutenção sem aumentos da taxa nominal de 10,75% nas reuniões do Copom de julho, setembro, outubro e dezembro de 2010.

É forçoso reconhecer que o BC somente manteve a mesma taxa durante quatro reuniões, porque sua diretoria, que é o Copom, sabia que, naquela altura, o presidente Lula não estava para brincadeira. O risco de ser-lhes mostrado o olho da rua era grande – e foi efetivo.

Mesmo assim, após quatro reuniões sem aumentos de juros, a taxa básica real de 4,8% era mais que o dobro da então segunda colocada, a taxa da África do Sul (2%), numa situação em que a média das taxas entre os 40 principais países do mundo era negativa (-0,8%).

Logo depois da posse da presidente Dilma, a 19 de janeiro, o BC aumentou a taxa nominal para 11,25% – e a taxa real foi para 5,5%.

Esta taxa era agora o triplo da segunda colocada, a da Austrália (1,9%), enquanto a média internacional continuava em -0,8%.

No dia 2 de março, o BC aumentou outra vez a taxa, para 11,75% – e a taxa real foi para 5,9%, continuando a ser o triplo da segunda (ainda a Austrália), com a média internacional em -0,9%.

No dia 20 de abril, outro aumento, para 12% – e a taxa real foi para 6,2%, também o triplo da segunda, agora a da Turquia, com média internacional negativa (-0,9%).

Os turcos, por sinal, começariam, a partir daí, um processo de queda acentuada dos juros (sua taxa básica real atual é 0%).

Enquanto isso, no Brasil, a 8 de junho, mais um aumento, para 12,25% – e a taxa real foi para 6,8%, agora mais de 4,5 vezes a segunda colocada, a taxa do Chile (1,5%), com a média internacional, mais uma vez, negativa (-0,9%).

Na quarta-feira, com o aumento da Selic para 12,5%, a taxa real, de 6,8%, é o triplo da segunda (a da Hungria), enquanto a média entre os 40 principais países está em -0,8%.

Nem comentaremos a tese (?) de que o aumento de juros era necessário por causa do aumento do salário mínimo no ano que vem – trata-se de algo tão canalha que preferimos esperar a ata do Copom para tomar algumas providências a respeito.

Porém, sintomaticamente, logo depois do aumento de quarta-feira, alguns banqueiros – aqueles que realmente mandam no BC – e seus consultores defenderam a peculiar teoria de que a taxa real de juros básicos “natural” para o Brasil é “algo entre 6% e 7%”.

De onde se pode concluir que o objetivo dos aumentos de juros, desde a posse da presidente Dilma, era alcançar essa aberração “natural”. Isto é, passar a taxa real, que estava em pouco menos de 5% para a faixa dos 7% – o que significou, também, catapultá-la do dobro para o triplo do segundo lugar.

Nada disso teve nada a ver com a inflação – assim como o sistema de “metas de inflação” também nada tem a ver com a inflação ou seu combate, mas com aumentar os ganhos dos bancos, estabelecendo metas artificialmente baixas como “gatilho” para sucessivos aumentos de juros, isto é, para aumentar a taxa real de juros (ver o artigo da auditora Maria Lucia Fattorelli na página 8 desta edição).

Qual a consequência disso? Evidentemente, tornar medíocre a ação de um governo bem intencionado, ao retirar-lhe recursos com que possa realizar as suas boas intenções. E não apenas do governo da presidente Dilma, mas de todos os governos do país – em suma, a consequência é tornar em alimento para abutres um dos países mais ricos do mundo.

Recentemente, ao abordar o problema das verbas para a educação (v. HP 15/07/2011), publicamos alguns dados sobre como o orçamento da União é estrangulado pelos juros e amortizações – isto é, pelos repasses aos bancos. Muitos leitores mostraram-se justamente revoltados diante das cifras que citamos, retiradas de demonstrativos do Tesouro Nacional.

Mas não tivemos tempo, ao escrever aquele texto às vésperas do Congresso da UNE, de estudar o “Balanço do Setor Público Nacional”, publicado pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN) no dia 30. Infelizmente para o país, de acordo com os dados consolidados da STN, na soma de juros e amortizações, subestimamos a sangria sobre a União em cerca de R$ 300 bilhões.

Só em juros, sem considerar as amortizações, de 2003 a 2010, a União passou aos bancos R$ 877,96 bilhões; os Estados, R$ 113,39 bilhões; e os municípios, R$ 25,33 bilhões. Ao todo, somente em juros, R$ 1,02 trilhão. Esses números são referentes a dinheiro orçamentário, isto é, dinheiro que poderia ser aplicado na Educação, na Saúde, na Habitação, etc. Não estão incluídas as estatais e outras entidades com orçamento próprio.

Naturalmente, para que nossa conta seja precisa, falta saber o que, nessas quantias monstruosas, foi devido à diferença entre os juros do BC e aqueles da média internacional. Mas essa conta nós deixaremos para outra matéria. Aqui, o importante é ter uma ideia do que significam os aumentos de juros do BC – e que espécie de lúmpen se presta a essa atividade antissocial.

Por CARLOS LOPES – horadopovo.com.br

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