Saúde  

Contar calorias não inibe exagero alimentar

Informar a quantidade de calorias em produtos não surtiu nenhum efeito sobre as escolhas alimentares dos nova-iorquinos. Da ‘Economist’*.
 
A divulgação do número de calorias nos cardápios de restaurantes e cafés de Nova York tornou-se obrigatória desde julho de 2008. Requere-se de qualquer empreendimento com mais de 15 filiais pelo país que registre as informações de calorias de cada item numa fonte similar e próximas aos seus preços. Mas a única pesquisa de seus efeitos no comportamento do consumidor, publicada em 2009, revela que informar as calorias não surtiu nenhum efeito sobre as escolhas alimentares das pessoas. Pesquisadores observaram 14 lanchonetes Wendy’s, McDonald’s, Burger King e KFC (a cadeia de fast-food anteriormente conhecida como Kentucky Fried Chicken) localizadas especificamente em regiões de baixa renda, comparando as calorias por consumidor duas semanas antes e quatro semanas depois da divulgação das calorias nos cardápios. A conclusão do estudo, que inspirou editoriais mordazes, é de que somente um dentre sete consumidores afirmou ter recorrido às informações de calorias, e que, no total, não houve variação significativa no consumo de calorias per capita.

A abordagem de Nova York sempre foi experimental. É notável por ter se tratado de uma das maiores intervenções de saúde pública em larga escala contra a obesidade; ainda agora, apesar de muitas boas ideias existirem; muito poucas foram postas em prática. Parecia lógico que uma vez que os consumidores percebessem quantas calorias havia em seus pedidos (estudos mostram que as pessoas tendem a subestimar este número), eles ajustariam suas escolhas.

Uma análise publicada na terça-feira, 26, no British Medical Journal reabilita parcialmente essa esperança, ainda que com algumas ressalvas importantes. O Departamento de Saúde da cidade conduziu seus próprios estudos antes e depois da obrigatoriedade das informações de calorias, neste caso um ano antes (primavera de 2007) e nove meses depois (primavera de 2009). A novidade do estudo foi seu escopo: ele analisava dados de todas as cadeias de fast-food de Nova York e utilizava-se de recibos coletados de 15 mil consumidores. Esta é de longe a mais completa avaliação do programa nova-iorquino até agora.

E quanto aos resultados? Surpreendentemente ambivalentes. A média de calorias compradas não diferiu, e de modo similar ao estudo anterior, somente cerca de uma dentre sete pessoas disseram ter usado as informações de calorias. Entretanto, aqueles que o fizeram compraram 96 calorias a menos do que os outros, uma redução de 11%

Mas as informações tornam-se mais interessantes ao se ultrapassar as médias e observar as tendências dentro de cada cadeia. Três das 11 cadeias do estudo superaram a média: McDonald’s, Au Bom Pain e KFC mostraram quedas significantes nas calorias dos pedidos dos consumidores, entre 40 e 80 calorias por pessoa. Os pesquisadores assinalam que esses restaurantes eram aqueles que também promoviam ativamente suas opções de baixas calorias. A força do estudo do British Medical Journal, então, pode ser a de realçar o grande efeito que as lanchonetes em si têm sobre os seus consumidores. Informações de calorias não funcionam somente como forma de alterar o comportamento dos consumidores; elas podem também afetar a estratégia das lanchonetes, encorajando-as a oferecer mais opções de baixas calorias ou promovê-las de modo mais enérgico.

*Texto adaptado para o Opinião e Notícia por Eduardo Sá

 

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