Como ler jornal e perder dinheiro

por Luiz Carlos Azenha
Quando o Bank of America anunciou lucro recorde, na segunda-feira, foi parar nas manchetes dos sites da Folha e do Estadão, que informam a elite do principal centro financeiro do Brasil.
Presume-se, assim, que os responsáveis por importantes decisões econômicas podem dormir tranquilos: enfim, sinais de recuperação nos Estados Unidos. O pior já passou. Será?
No mínimo, é um caso didático de como o jornalismo baseado apenas em vozes “do mercado” e que nem se preocupa em buscar vozes discordantes fora do mercado pode fazer você perder dinheiro.
Quem se deu ao trabalho de buscar uma voz diferente, num site “contrarian” como o Counterpunch — que tem gente de direita e de esquerda, diga-se — leria que os bancos maquiaram seus balanços recentes com um objetivo muito simples: vencer a resistência que existe no Congresso dos Estados Unidos a qualquer novo pacote de ajuda aos bancos.
Isso tem uma implicação séria: o fato de que os bancos querem vencer essa resistência significa que ELES VÃO PRECISAR DE MAIS DINHEIRO. Ou seja, é indicativo de que o resgate do governo Obama não deu conta de resolver a situação, ainda que às custas de bilhões e bilhões de dólares do contribuinte americano.
Não advogo que as pessoas acreditem no que sai no Counterpunch. Advogo que a cobertura de “economia” não seja distinta da cobertura de “política”. Os interesses se cruzam. Num momento em que o mercado financeiro depende cada vez mais de dinheiro público, não considerar as implicações políticas de decisões econômicas — e vice-versa — é no mínimo ignorância.
Tanto a Folha quanto o Estadão dispõem de correspondentes nos Estados Unidos e poderiam colocá-los em campo, com o objetivo de evitar a mera reprodução do que dizem os que já são definidos jocosamente, nos Estados Unidos, como “cheerleaders do mercado”.
Um exemplo:
A matéria da Folha, que reproduzo parcialmente abaixo, enfatiza a “realização de lucro” tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos — ou seja, aquele momento em que o investidor faz uma pausa para embolsar algum — para explicar a queda repentina nos mercados de Nova York e São Paulo:

20/04/2009 – 17h54
Bovespa fecha em baixa de quase 3% em sessão para embolsar lucro
da Folha Online
A Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) fechou com retração de quase 3% nesta segunda-feira, seguindo a tendência dos mercados internacionais e com os investidores embolsando ganhos ante a alta recente dos preços das ações neste mês. Nem mesmo o desempenho positivo do Bank of America, nos Estados Unidos, foi suficiente para reverter o ímpeto do mercado.
O Ibovespa, termômetro dos negócios, encerrou em queda de 2,94%, 44.433 aos pontos. A variação negativa é a maior desde 30 de março, quando recuou 2,99%. No mês, no entanto, a trajetória ainda é de valorização, de 8,57%.
“Hoje foi de queda forte, porque demorou demais para realizar lucro. O cenário tem uma indefinição muito grande, mas uma coisa positiva é que a crise de confiança está começando a se dissipar”, disse Jason Vieira, economista-chefe da UpTrend Consultoria Econômica, que estima um cenário de quedas menos expressivas ou até de alta para os próximos dias.
[…]
Nos Estados Unidos, o investidor também procurou embolsar lucros. A Nyse (Bolsa de Nova York) caiu de 3,56% para o índice DJIA (Dow Jones Industrial Average), que atinge os 7.841,73 pontos. O índice Nasdaq, de elevado teor tecnológico, recuou 3,88%, aos 1.608,21 pontos.
Nem mesmo o resultado positivo do Bank of America no primeiro trimestre do ano foi suficiente para conter o ímpeto dos investidores e conduzir os negócios para o campo positivo.
Segundo divulgou a instituição financeira hoje, o lucro líquido foi de US$ 4,2 bilhões nos três primeiros meses do ano. O resultado foi quase três vezes maior que os do mesmo período do ano anterior –quando o lucro foi de US$ 1,2 bilhão. O ganho do banco por ação foi de US$ 0,44 –o que surpreendeu os analistas, que previam um ganho de apenas US$ 0,04 por ação.
No quarto trimestre do ano passado o banco registrou um prejuízo de US$ 1,7 bilhão. A receita do Bank of America entre janeiro e março ficou em US$ 36 bilhões. O banco fez ainda um acréscimo de US$ 6,4 bilhões a suas provisões para arcar com perdas ligadas a inadimplência.

Dúvidas
Alguns analistas também atribuíram a queda dos mercados de hoje às incertezas quanto à qualidade dos dados apresentados e das dívidas da instituição financeira. “O lucro do Bank of America veio bem, mas com pormenores negativos. Aumentaram, por exemplo, a inadimplência. O desempenho não foi favorável na parte financeira”, segundo a Alpes.
“Os resultados são positivos. Mas é possível usá-los como desculpa [para a queda do valor dos papéis em um dia de realização de lucro]. É óbvio que não está bom, com tantos ativos podres. O Bank of America foi um dos articuladores do subprime [créditos de alto risco]. Mas o resultado foi positivo e só não fez as Bolsas subirem, porque ocorreu nesta semana, de ajuste”, disse Vieira.

Leia aqui a íntegra.
A matéria do New York Times, publicada na mesma data e parcialmente traduzida pelo Viomundo, destaca os lucros do Bank of America no título mas abre contextualizando a queda na bolsa de Nova York e menciona os truques contábeis dos dois principais bancos americanos. Só depois destaca o press release do Bank of America e fala na “realização de lucros”:
Lucros em alta, chefe do Bank of America cita aquisições
por Jack Healy e Louise Story

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