Como a vassoura tornou-se o que é hoje

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

Na família dos utensílios de limpeza, a vassoura – humilde, enganosamente simples no design, propensa a inclinar-se discretamente nos cantos — muitas vezes não desfruta do reconhecimento que merece. Limpeza doméstica começa e termina nas pontas das fibras de uma vassoura, sejam elas naturais ou sintéticas. Uma boa e resistente combinação de pau e palha pode facilitar muito o trabalho de limpar uma cozinha coberta de migalhas ou uma varanda cedendo com o peso de folhas. Mesmo nesta avançada era digital, dominada por magnânimos aspiradores de pó e robôs que limpam a casa, a vassoura continua sendo essencial para qualquer pessoa verdadeiramente comprometida na luta contra a sujeira: nenhum conjunto de microfibras eletrostáticas ou câmaras de vórtice cuidadosamente projetados pode substituir a sensação de varrer, a força silenciosa temperada pelo controle elegante que reverbera para cima, das cerdas à mão. Mas quem inventou a vassoura? E por que é que ela funciona da forma como funciona?

As primeiras vassouras não eram planas (Thinkstock)

 

Enquanto não temos uma data exata para a invenção da vassoura, montes de galhos, canas, cascas de milho e outras fibras naturais têm sido utilizados desde os tempos antigos para varrer as cinzas e brasas em torno de fogueiras e, mais tarde, lareiras. O Novo Testamento, por exemplo, menciona o uso de vassoura nos argumentos de Jesus, em Lucas 15:8, sobre a importância de uma única alma perdida: “Qual mulher que, mesmo dispondo de dez moedas de prata, se perder uma peça, não acende uma vela e varre a casa, buscando com diligência até encontrá-la? “. Antes do século 19, fazer vassouras era uma arte peculiar; a maioria era feita em casa, de qualquer material que estava à mão. A estratégia básica envolvia amarrar com corda ou fios de linho pedaços de palha a uma vara de madeira. No entanto, essas vassouras artesanais tinham vida curta e precisavam ser substituídas frequentemente.

A profissionalização da arte de fazer vassouras parece ter começado na Inglaterra anglo-saxã, onde artesãos conhecidos como “escudeiros de vassouras” (“besom squires” ) na região sudeste coletavam galhos das muitas bétulas na região, em bom estado e, em seguida, amarravam-nos a pedaços de pau de castanheiras e outras madeiras. Uma obcena canção popular do século 18 chamada “The Maker Besom”(o fazedor de vassouras) faz chacota da necessidade de uma mulher fabricante de vassouras de pesquisar as madeiras locais em busca de materiais, e, ao longo do caminho, outros prazeres. O comércio britânico de vassouras desta região continuaria durante séculos, paralelamente a várias técnicas caseiras, e alguns profissionais ainda fazem vassouras lá hoje, trabalhando como artesãos de um patrimônio histórico.

O cultivo de sorgo no Colorado (Library of Congress)

A produção de vassouras modernas realmente começou, no entanto, com o aumento da produção de uma colheita previamente subestimada, que logo seria chamada de “sorgo”. Espécie de grama de ramos rijos (Sorghum vulgare), que lembra um pouco a planta de milho doce, sementes de sorgo e as fibras tinham sido utilizadas para a alimentação animal e nada mais. Então, de acordo com historiador Gregory H. Nobles, em 1797, um agricultor de Hadley, Massachusetts, chamado Levi Dickinson teve a ideia de usar a erva para fazer uma vassoura para sua esposa, bem como algumas extras para vender aos vizinhos. Sua vassoura – um amontoado redondo de sorgo amarrado a uma vara com um pouco de tecelagem em torno da parte superior, mostrou-se mais durável e eficiente do que modelos anteriores, e criou-se uma demanda por elas naregião. Em 1800, Dickinson e seus filhos estavam fazendo várias centenas de vassouras por ano para vender em todo o nordeste dos Estados Unidos.

Anúncio de uma máquina de fazer vassouras (Google)

Outros fazendeiros rapidamente plantaram hectares de sorgo e juntaram-se ao comércio, na medida em que a fabricação de vassouras era um trabalho bastante simples, que poderia se encaixar facilmente nas responsabilidades pré-estabelecidas da vida agrícola. Pelas primeiras décadas do século 19, uma série de versões da ” máquina de fazer vassouras” – um conjunto de tornos, grampos e um pedal de pé (essencialmente um aparelho de tensão que usa os pés do artesão para manter um rolo de fio tenso enquanto ele o enrolava em torno do pau da vassoura) – foram desenvolvidas e tornaram a fabricação de vassouras ainda mais rápida e fácil.

Réplicas de vassouras fabricadas pelos Shakers (Shakershops.com)

Foram os Shakers, um seita religiosa cristã, centrada no nordeste dos Estados Unidos e reverenciados por seu artesanato, que tornaram a vassoura plana. A intervenção dos Shakers – a única importante atualização para a vassoura desde a introdução da máquina de fazer vassouras era simples, mas engenhosa: em vez de enrolar o sorgo em montinhos na alça do cabo de pau, eles descobriram que a fixação das fibras com arame, achatando-as com um torno e costurando para fixar ao cabo resultava em uma ferramenta de limpeza superior. Vassouras planas ofereciam um maior controle sobre o movimento das fibras da vassoura e uma área de superfície alargada. (Os Shakers também foram pioneiros no espanador, perfeito para espanar o pó e varrer superfícies mais altas). É provável que a vassoura atrás da sua porta hoje (assumindo que ela não seja sintética) tenha quase exatamente este mesmo design. Com o advento da máquina de fazer vassouras e o aperfeiçoamento do design pelos Shakers, a popularidade da fabricação deste utensílio espalhou-se rapidamente por todo o Estados Unidos, atingindo seu ápice por volta de 1850, quando mais de 1 milhão de vassouras eram fabricadas a cada ano apenas no estado de Massachusetts, e eram vendidas até em terras distantes da América do Sul.

Fábrica de vassouras do Exército e Marinha norte-americanos, em 1944 (Library of Congress)

Eventualmente, a fabricação de vassouras seguiu a expansão nacional até os estados do oeste, onde o clima é mais propício ao cultivo do sorgo. Na virada do século 20, a indústria havia diminuído significativamente no nordeste dos EUA. Seguindo as tendências maiores de industrialização em todos os comércios, pequenas lojas de vassoura nos Estados Unidos expandiram gradualmente suas fábricas para atender à demanda. Suas técnicas de fabricação continuavam a exigir habilidades manuais no trabalho, até 1994, quando a NAFTA reduziu o custo de vassouras mexicanas, forçando muitas empresas norte-americanas a fechar. Atualmente, a maioria dos Estados Unidos ainda usa vassouras de fibras naturais vindas do sul da fronteira, com apenas alguns fabricantes locais restantes.

Este não foi sempre o formato associado à palavra vassoura (Thinkstock)

Talvez a maior mudança no universo das vassouras no século passado tenha sido a ascensão da sua sósia sintética. Após o desenvolvimento das fibras sintéticas em 1940, empresas como a DuPont começaram a criar filamentos e produtos plásticos em tempo para o boom do consumo dos anos 1950 e 60. Estas tecnologias foram rapidamente adaptadas para vassouras, especialmente as versões enormes usadas por zeladores hoje, e estas variedades e estilos continuam a vender junto com os antigos modelos com fibras naturais. Muitos proprietários de imóveis mantêm uma de cada, usando a versão com cerdas mais macias, de plástico, em madeiras sensíveis e o sorgo mais resistente para trabalhos mais pesados.

Versões modernas da boa e velha vassoura de fibras naturais (Google)

A dona de casa moderna pode escolher entre uma variedade de implementos para limpar os pisos, incluindo vassouras sintéticas, uma linha de produtos em constante metástase, e, claro, o aspirador de pó. O aspirador é altamente eficaz em determinadas tarefas (especialmente a limpeza de tapetes), mas a maioria das casas ainda mantém uma vassoura antiquada, por conta de sua confiabilidade inabalável. Para um item doméstico essencialmente aperfeiçoado no seu design tantas décadas atrás, o poder de permanência da vassoura –  tanto como uma ferramenta de limpeza como um símbolo cultural puro da serenidade doméstica – é notável e merecido. E há também a questão da estética: uma vassoura resistente é muito mais agradável do que um guardanapo sujo amarrado a um bastão de plástico frágil.

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Um comentário para “Como a vassoura tornou-se o que é hoje”

  1. ⇒ Amarildo de Andrade disse:

    Gostaria de receber informacoes se no brasil existe essa maquina ou reprica da mesma .
    desde ja muito obrigado