Como a sociedade de consumo erotiza e faz das crianças mini-adultos

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timtA erotização precoce viola a infância de muitas crianças brasileiras. Recentemente, esse fenômeno ficou explícito no caso da MC Melody, filha de oito anos do cantor MC Belinho que apareceu em vídeos do pai usando roupas provocantes e cantando letras de forte apelo sexual.

O caso enfureceu a opinião pública e trouxe à tona o debate sobre a erotização e a adultização infantil, fenômenos que contribuem para a gravidez precoce e a exploração sexual de menores.

Em entrevista ao Opinião e Notícia, Laís Fontanelle, psicóloga do Instituto Alana, organização que luta pelos direitos das crianças, falou sobre a crescente tendência de expor crianças como mini-adultos.

Laís explica que a erotização precoce é um reflexo da sociedade de consumo em que vivemos, que promove tanto a adultização das crianças quanto a infantilização dos adultos.

“Quanto mais se adultiza uma criança e infantiliza um adulto, mais se vende. É o que dizem os marqueteiros. Por isso, vemos meninas de quatro anos usando sutiã com bojo e mulheres com mochilas da Hello Kitty. Os filmes de animação hoje não são mais feitos só para crianças, eles querem atingir o adulto também”.

Boneca Barbie foi uma das mentoras da erotização infantil (Reprodução/Internet)

Boneca Barbie foi uma das mentoras da erotização infantil (Reprodução/Internet)

Segundo a psicóloga, “dentro dessa sociedade, queimar etapas da infância para inserir a criança nesse mundo de consumo é muito comum, e isso passa pela erotização”. “A infância está encurtando e se mercantilizando”.

Apesar de chocar, esse fenômeno não é novo e começou décadas atrás, com as apresentadoras infantis que apareciam na TV com roupas provocantes e a boneca Barbie. “Elas foram as mentoras dessa tendência. Com a Barbie veio essa história de glamour, de erotização do corpo de uma boneca, cujo foco era conquistar um namorado, ter carro cor de rosa, mais itens, mais roupas”, diz Laís.

Laís explica que as crianças ainda não estão prontas para lidar com essa erotização e que isso pode afetar o seu desenvolvimento psicológico. “Elas estão numa fase de desenvolvimento, não estão prontas para receber essas mensagens e olhares. Acredito que isso influencia o desenvolvimento, porque a infância é a fase onde se formam a moral, os valores, o reconhecimento do corpo”.

A psicóloga diz que há uma grande diferença entre a adultização infantil e o hábito que as crianças têm de imitar os pais. “A menina colocar o salto alto da mãe e brincar de pintar as unhas faz parte do desenvolvimento saudável. Ela está exercitando o comportamento futuro. Mas a partir do momento que uma menina de quatro anos tem salto alto e sutiã no seu número, e há um mercado produzindo isso, aí a gente tem uma questão”.

Há, no entanto, várias formas de os pais protegerem os filhos desse fenômeno sem adotar uma educação moralista. “O diálogo e o exemplo são a chave para transformação. A coerência dos pais é o indicador que transforma essa realidade. A gente tem que prestar atenção nos próprios hábitos”.

Laís acredita que houve avanços para combater a erotização precoce. “Nossa legislação de proteção à infância é uma das mais avançadas do mundo. Na nossa Constituição Federal, o artigo 227 diz que a criança é prioridade absoluta em nosso país. Mas a gente tem de ver a efetividade dessa lei. A sociedade civil tem de estar atenta a esses abusos que são cometidos cotidianamente. Mas acredito que houve avanços. No caso da MC Melody, por exemplo, o Ministério Público rapidamente abriu um inquérito”.

 

Fonte: Opinião&Notícia

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