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Ciganos prosperam nos Estados Unidos

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

Vítima de preconceitos e deportações na Europa, etnia tem vida tranquila na América do Norte.

Somente os pratos balcânicos no cardápio e o ruído das conversas no idioma romani distinguem o Tommy’s International Sports Café, no Bronx, em Nova York, dos outros estabelecimentos da região. Assim como os albaneses, italianos e hispânicos que vivem na região, seus clientes são norte-americanos. Eles tiram férias, trabalham como policiais e professores, e mandam seus filhos à faculdade. Perguntado sobre seus vizinhos, um homem do outro lado da rua pergunta surpreso: “Temos ciganos aqui?”

A maioria dos ciganos do Bronx vê o velho continente com um misto de simpatia e desdém. “O dinheiro que gastamos aqui com balas, eles economizam lá para comprar comida e conseguir sobreviver”, diz Vefki Redzeposki, um adolescente que trabalha como eletricista. O contraste entre a vida comum e anônima nos Estados Unidos e os guetos e acampamentos ilegais europeus que povoam as impressões dos ciganos norte-americanos não poderia ser mais precisa. Nos últimos meses as manchetes dos jornais escancararam o problema dos ciganos europeus que enfrentam na melhor das hipóteses, o preconceito, e na pior delas, a deportação.

A chegada dos países do antigo bloco comunista à União Europeia trouxe leis para combater a discriminação, mas tais leis não são postas em prática. Petra Gelbart, uma musicóloga tcheca de origem cigana, afirma que aqueles que procuram empregos falando tcheco sem sotaque e com sobrenomes não muito exóticos, rapidamente conseguem entrevistas. No entanto, quando os entrevistadores os veem — e consequentemente seu tom de pele — subitamente as vagas já estão preenchidas. Muitos ciganos nem chegam tão longe. Na Eslováquia, a etnia representa menos de 10% da população, mas suas crianças ocupam 60% das vagas nas escolas para crianças portadoras de necessidades especiais (muitos pais evitam escolas tradicionais por conta dos casos de bullying). A busca por uma vida melhor na Europa Ocidental irritou a população local que viu nos ciganos a razão para o crescimento no número de pedintes e batedores de carteira, brigas, estupros e crescimento de favelas nas periferias das grandes cidades. A resposta política veio na deportação de 8 mil ciganos para a Romênia e a Bulgária em 2010, e o fechamento de diversos acampamentos.

As ações do governo francês foram encaradas como racismo na União Europeia. Pierre Lellouche, ministro de assuntos europeus, declarou que a França era “a mãe dos direitos humanos”, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, sugeriu que Luxemburgo — país-natal do comissário de justiça da EU — abrigasse os ciganos deportados. O governo romeno prometeu um novo plano de inclusão dos ciganos até 2010. No país, os ciganos foram escravos até a metade do século XIX. Durante o período de dominação nazista, 500 mil ciganos romenos morreram nos campos de concentração. Em seguida, o período comunista e as variações econômicas dificultaram ainda mais a vida do grupo que passou a migrar para os países do ocidente. A maioria dos ciganos deportados afirma que pretende, eventualmente, retornar à França.

A solução para o problema pode estar na educação, que esbarra na tradição cigana de educar as crianças fora do ambiente escolar. Segundo Leslie Hawke, uma norte-americana que comanda uma instituição de caridade na Romênia, afirma que as leis que obrigam os pais a matricular seus filhos nas escolas não são implementadas, mas a que proíbe o registro escolar de crianças acima dos nove anos é reforçada. No Bronx, tais problemas parecem distantes. “Quando nos derem uma chance para sermos bem-sucedidos, a agarraremos e seguiremos adiante”, diz Saniye Jasaroska, de 34 anos. Os Estados Unidos dão chance aos seus ciganos. A Europa precisa aprender a fazê-lo.

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