Chantagem e vingança agravam crise no Senado

Por Mário Coelho – congressoemfoco.com.br
Tropa de choque de Sarney intimida senadores que pedem seu afastamento da presidência com ameaça de revelações de atos supostamente comprometedores. Embate com tucanos tem sabor de revanche para Renan
Gim Argello (dir.) acredita que a situação está pior e, por isso, propôs reunião para apaziguar os ânimos
Desde que o Senado passou a enfrentar a crise gerada por uma sucessão de denúncias, três palavras têm sido constantemente repetidas nos bastidores e nos microfones pelos parlamentares: chantagem, máfia e vingança. Juntas, elas lançam uma luz sobre os motivos que resultaram na troca de xingamentos ocorrida ontem (6) entre o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), e o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). A combinação tem servido para agravar ainda mais a tensão política na Casa.
A partir do momento em que o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), tornou-se alvo de denúncias nos jornais, a oposição recorreu a discursos e representações para forçar o peemedebista a deixar o cargo. Ao subir o tom das investidas, os opositores não esperavam, entretanto, que aliados de Sarney virassem o jogo e partissem com toda força ao ataque.
“O clima é de chantagem, de intimidação”, afirmou ao Congresso em Foco o senador José Nery (Psol-AL), um dos líderes informais do bloco suprapartidário que pede a saída de Sarney da presidência. A resposta é uma referência à tática de centrar fogo na oposição utilizada por aliados do peemedebista. “Senadores estão sofrendo chantagens aqui. Conclamo a eles que venham a público explicitar essa situação”, discursou o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) em plenário ontem.
Pelo menos quatro senadores receberam recados de aliados de Sarney. Caso não baixassem o tom dos discursos, sofreriam com representações no Conselho de Ética do Senado. São eles: Cristovam, Tasso, Alvaro Dias (PSDB-PR) e Sérgio Guerra (PSDB-PE). Nenhum deles, entretanto, admite explicitamente a pressão. “O Renan inclusive mandou um bilhete para a gente hoje [ontem] dizendo que não estava fazendo nada nesse sentido”, respondeu Alvaro.
Cristovam Buarque, porém, admitiu ao Congresso em Foco que “todos estão sendo chantageados”. “Ou, pelo menos, pré-chantageados”, observou. O pedetista explicou que “insinuações” com relação a supostas irregularidades envolvendo a oposição são ventiladas nos bastidores. A intenção é intimidar os parlamentares. Mesmo assim, ele voltou a defender a renúncia do peemedebista da presidência. “Se continuar do jeito que está, o clima vai pegar fogo, vai continuar o ano inteiro assim.”
“Não pensem que chegarão aqui, atacarão um presidente, eleito pelo PMDB, que tem toda uma história, e achar que vamos ficar calados”, retrucou, da tribuna, o senador Wellington Salgado (PMDB-MG). Apontado como um dos membros da tropa de Renan, ele, entretanto, negou que estivesse produzindo dossiês contra os colegas. Mas deixou claro que o plenário pode ser usado outras vezes como palco para discussões entre aliados e opositores.
O líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), comentou sobre as supostas chantagens na terça-feira (4). Em discurso no plenário, o tucano afirmou que os aliados de Sarney começariam a levantar denúncias sobre o mandato dos rivais. “Se o senador Jereissati não se comportar bem, aí vamos falar naquele negócio do combustível do senador Jereissati; se o senador Jarbas Vasconcelos exagerar, vamos ver se o senador Jarbas fez alguma viagem inconveniente; se o senador beltrano de tal não sei o quê… Vamos ver o que as tais fichas dizem de quem, se o senador Cristovam empregou não sei quem não sei onde; se o senador Pedro Simon fez”, discursou. Alvaro Dias antes, em entrevista ao site Terra Magazine, qualificou Sarney e Renan como “mentores do grupo com tática da máfia napolitana”.
Um dos vice-líderes do governo no Senado, Gim Argello (PTB-DF) também é visto como aliado de primeira hora de Sarney. Gim disse ao site que a discussão de ontem deixou a Casa numa situação ainda pior com as agressões verbais de Tasso e Renan. “O Conselho de Ética é o lugar de se discutir com mais calma tudo isso. Propus que fizéssemos uma comissão de cinco senadores para apaziguar os ânimos.”
Mas o dia de hoje pode trazer mais confrontos entre os senadores que ficaram em Brasília. O presidente do Conselho de Ética, Paulo Duque (PMDB-RJ) prometeu publicar o arquivamento das denúncias restantes contra Sarney e Renan. Ele disse à TV Globo que não haverá sessão por conta das discussões acaloradas da última quarta-feira (5).

Estrutura
Além das denúncias envolvendo Sarney e do comportamento de seus aliados, parlamentares ouvidos pelo Congresso em Foco apontam outros problemas que levam a esse estado constante de tensão e confronto no Senado. “A estrutura é arcaica, está apodrecida”, declarou Nery. O líder do Psol considera que as sucessivas crises na Casa são frutos de brigas internas de grupos de servidores. “Não tem lógica uma Casa com 81 senadores ter 10 mil funcionários”, destacou, complementando que uma reforma interna do Senado é indispensável. “Para alguma coisa essa crise tem de servir.”
Cristovam tem a mesma opinião. Para ele, a simples saída de Sarney não resolve os problemas da Casa. Ele acredita que, depois, é preciso “mudar o grupo que manda há 15 anos no Senado”. Para que isso aconteça, líderes de cinco partidos e senadores de outras legendas assinaram um manifesto divulgado ontem, mais uma vez pedindo o afastamento do presidente (leia mais).
A tática da oposição, mesmo com os revezes no Conselho de Ética, continuará basicamente a mesma. Os oposicionistas apresentarão recursos tanto no colegiado quanto no plenário. A esperança desse grupo de senadores é que, na última instância, as inquietações veladas contra a atual administração se manifestem no voto, propiciando a abertura de um processo investigatório político contra o peemedebista.
Também vão tentar envolver a sociedade civil nas discussões. Após reunião na manhã de ontem no gabinete de Cristovam, os senadores decidiram organizar um evento “em prol da instituição”. A tendência é que ele ocorra já na próxima semana. “Vamos discutir com setores da sociedade. As ruas precisam acordar para o que está acontecendo”, explicou o líder do Psol.

Vingança
O ano de 2007 foi ruim politicamente para Renan Calheiros. Denúncia da revista Veja apontou que as contas da jornalista Mônica Veloso, com quem teve uma filha, teriam sido pagas por Cláudio Gontijo, lobista da construtora Mendes Junior, em dinheiro vivo. O peemedebista tentou se defender, alegando que tinha feito os pagamentos com recursos próprios. Mas a defesa acabou sendo derrubada pelo advogado de Mônica, Pedro Calmon Filho. E as justificativas apresentadas pelo alagoano para justificar seus rendimentos acabaram por envolvê-lo ainda mais.
Por causa das denúncias, Renan foi obrigado a renunciar à presidência do Senado. Enfrentou, ainda, uma série de processos de cassação por falta de decoro parlamentar, mas acabou escapando após votação em plenário. No ano seguinte, ficou à sombra dos colegas, esperando o momento de retomar as articulações políticas. Em 2009, tem sido bem sucedido: voltou a ser líder do PMDB na Casa e foi o principal articulador da campanha de Sarney à presidência.
“Existe uma série de sentimentos acumulados. E o que aconteceu em 2007 é um deles”, disse Alvaro Dias. Ao alvejar especialmente os tucanos, Renan tenta se vingar do processo que passou na Casa. E, de quebra, se fortalece novamente como um dos principais articuladores do PMDB.

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