Saúde  

Chá do Daime é usado por dependentes para combater vício

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

Uso do chá para tratamento de dependência não é aconselhável e pode ser perigoso.

Alcoólatras crônicos e usuários de drogas ilícitas declararam terem abandonado o vício com o chá ayahuasca, conhecido como Daime. No entanto, o uso do chá como tratamento não é reconhecido publicamente. O tratamento alternativo é usado entre os membros de grupos religiosos que utilizam a bebida, como o Santo Daime e a União do Vegetal. A comunidade científica, médicos e cientistas, estão estudando os efeitos do chá para analisar o suposto combate aos vícios.

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As experiências têm sido realizadas por indicação de psiquiatras que freqüentam os rituais com a bebida. De acordo com o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, do Proad (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes), da Unifesp, pessoas que tiveram contato com o chá e tinham problemas com alcoolismo por mais de 40 anos “milagrosamente” largaram o vício.

Silveira, no entanto, não recomenda o chá como tratamento e avalia que o próprio ritual pode influenciar a recuperação dos dependentes: “Sabemos que o contexto religioso protege as pessoas das drogas, mas suspeito que não seja somente isso. Há um efeito químico, que ainda não foi pesquisado”, diz.

Segundo o doutor João Ernesto de Carvalho, coordenador da Divisão de Farmacologia e Toxicologia do CPQBA (Centro Pluridisciplinar de Pequisas Químicas, Biológicas e Agrícolas), da Unicamp, a farmacologia também não explica o fim da dependência, já que do ponto de vista farmacológico, os usuários teriam que tomar doses diárias do chá para que ele fosse considerado um tratamento. Porém, os rituais realizados com o consumo do Daime ocorrem, em média, duas vezes ao mês.

O publicitário Benito Alvarez Rizi, 55, era dependente de cocaína e bebida alcoólica há cinco anos, quando começou a tomar o chá, se declara limpo: “Desde que comecei a tomar o ‘vegetal’, a vontade de me drogar sumiu da minha cabeça.”

A dúvida, no entanto, é se o chá não é apenas um substituto do vício. Para Xavier, apesar de admitir que a dependência pode ser psicológica, a diferença é que a ayahuasca, não é uma experiência agradável, e possui efeitos colaterais como diarreia, vômito, náusea e formigamento. “Não é uma droga do prazer ou que dê ‘barato’ como a cocaína, o álcool ou outra substância. Não é uma experiência agradável que as pessoas queiram repetir”, disse.

Para o psiquiatra e coordenador do grupo de estudos de álcool e drogas da Faculdade de Medicina da USP, Arthur Guerra, o uso do chá para tratamento de dependência não é aconselhável e pode ser perigoso: “Como uma substância alucinógena vai tratar dependentes? Pode ocorrer um erro médico e, em vez de você ajudar a pessoa, você pode matá-la.”

Caso Glauco

Em março de 2010, Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, o Cadu, matou o cartunista Glauco Villas Boas e o filho dele, Raoni. O assassinato aconteceu em Osasco e ambos foram mortos com quatro tiros cada.

Cadu frequentava a igreja Céu de Maria que segue os rituais do Santo Daime. Na ocasião, foram levantadas hipóteses de que o consumo do chá e de outras drogas pudessem ter influenciado o estado mental do assassino, que após laudo médico foi considerado sem condições para responder pelos crimes. A Justiça determinou que Cadu fosse transferido para um hospital psiquiátrico.

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