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Cachoeira pode ter feito doação oculta a Marconi

O dono do laboratório Teuto, Walterci de Melo, doou R$ 400 mil para a campanha eleitoral do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), exatamente um dia depois de receber o mesmo valor da conta de uma empresa fantasma do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. É o que mostra cruzamento da prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com a movimentação financeira da G&C Construções e Incorporações, obtida pela CPI do Cachoeira.

Tudo poderia ser mera coincidência não fosse Walterci um amigo de Cachoeira, que aparece conversando com ele em muitos dos grampos feitos nas investigações da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal. O empresário do ramo farmacêutico é, por exemplo, uma das pessoas que aparece em grampos, juntamente com o também empresário Marcelo Limírio, discutindo com Cachoeira a possibilidade de criar em Goiânia um heliporto numa parceria público-privada com o governo do estado. Em grampos telefônicos captados pela Polícia Federal, ele disse que Perillo dava aval ao negócio. O diretor da Agência Goiana de Transportes e Obras Públicas (Agetop), Jayme Rincón, ex-tesoureiro da campanha de Perillo, afirma que tal parceria, apesar dos grampos, não existe.

Cachoeira queria heliporto em parceria com Perillo
Jayme Rincón nega parceria para heliporto de Cachoeira

Para o relator da CPI do Cachoeira, deputado Odair Cunha (PT-MG), não se trata de uma coincidência. No seu relatório, que será lido e votado na próxima semana pelos demais integrantes da comissão de inquérito, a coincidência esconde uma doação oculta de Cachoeira para Perillo. Já para Jayme Rincón, tudo é mesmo uma mera coincidência, e a conclusão de Odair Cunha uma precipitação. “O deputado Odair Cunha está viajando na maionese”, disse ele ao Congresso em Foco.

O fato é que no dia 11 de novembro de 2010, pouco depois do segundo turno das eleições, Walterci transferiu eletronicamente R$ 400 mil para a conta da campanha de Perillo. O tucano acabara de ser eleito governador do estado derrotando o ex-senador Íris Rezende (PMDB). Um dia depois, o dono do laboratório farmacêutico Teuto recebeu transferência bancária de idênticos R$ 400 mil da empresa fantasma G&C Construções e Incorporações, novo nome da Adércio & Rafael Construções e Incorporações. A firma é mais uma empresa de fachada de Cachoeira e fez o pagamento na conta que Walterci mantinha então no banco HSBC.

“Houve uma clara triangulação do grupo criminoso, no sentido de ocultar os verdadeiros doadores dos valores que alimentaram parte da campanha eleitoral do Governador Marconi Perillo”, conclui Odair Cunha em seu relatório à CPI. O deputado julgou que isso significa captação ilegal de recursos para campanha, o que, em tese, renderia a cassação do mandato do governador. Por isso, Odair recomenda o envio do relatório ao Ministério Público e ao Tribunal Regional Eleitoral para que os órgãos tomem providências.

Só Walterci pode explicar

De acordo com Jayme Rincón, que hoje preside a Agência Goiana de Transportes de Obras Públicas (Agetop), não houve acordo para receber ocultamente dinheiro de Cachoeira ou da empreiteira Delta Construções, ligada ao bicheiro. Ele afirmou ao site que só Walterci pode explicar porque recebeu de uma empresa de Cachoeira um pagamento igual ao que tinha feito à campanha de Perillo um dia antes. O empresário disse ao Congresso em Foco que não se pronunciaria sobre o assunto.

A campanha do governador custou R$ 29 milhões, segundo o TSE. “Recebemos aqui 20 ou 30 milhões de reais, eu não lembro. Como é que eu iria atrás de cada doador de campanha, falando assim: ‘Olha, esse dinheiro seu vem da onde?’. Ah, é viajar na maionese”, protestou Rincón, o tesoureiro da campanha, responsável pela arrecadação de dinheiro.

A Delta quis doar

Entretanto, segundo o próprio Rincón, a empreiteira Delta, que aparece umbilicalmente vinculada a Cachoeira nas investigações do esquema, quis fazer uma doação para a campanha de Marconi Perillo. E, aí, no caso, segundo o próprio Rincón, a campanha quis saber de onde vinha o dinheiro. E recusou-o. De acordo com Rincón, porque a construtora seria “inimiga formal” dos tucanos, vinculada ao PT e ao PMDB. Diz o ex-tesoureiro de Marconi que o emissário da oferta de dinheiro para a campanha foi o ex-vereador do PSDB Wladimir Garcez, que, segundo a Polícia Federal, tinha ligações com Cachoeira e despachava “diretamente” com o governador. “O Wladimir foi um que nos procurou pra fazer doação”, revela Rincón. Ele rejeita, porém, a ideia de que, sem a possibilidade de fazer a doação diretamente, a Delta pudesse, então, encontrar uma forma de fazer a doação oculta.

“Que vantagem a Delta teria em doar através do Walterci, se o Walterci é que ficaria com os louros da história?”, imagina o tesoureiro.

Ele e Perillo são amigos do dono do laboratório Teuto, assim como Cachoeira. Rincón lembra que o patrimônio de Walterci supera os R$ 3 bilhões e que ele não precisaria de dinheiro da Delta ou do bicheiro para ajudar o governador, como sempre fez em outras campanhas. “Ele não precisa de dinheiro de ninguém.”

Empréstimos

Tivesse ou não vantagem, o fato é que as investigações demonstram a existência de elos entre Walterci, a Delta e Cachoeira. Em abril de 2010, por exemplo, o empresário depositou R$ 55.620 na conta da empresa Brava Construções, destino de dinheiro da empreiteira Delta e considerada pela CPI como firma fantasma operada por Cachoeira. Na conta da Brava, a Delta depositou R$ 13 milhões.

Além de dono da Teuto, em que 40% do capital pertence ao laboratório multinacional Pfizer, Walterci é sócio do ICF – Instituto de Ciências Farmacêuticas. Lá, tem 30% das cotas e é sócio da ex-esposa de Cachoeira Andréa Aprígio, que também tem 30%.

Entre fevereiro e novembro de 2011, Walterci fez quatro pagamentos para Marcelo Limírio, dono do laboratório Neoquímica e seu sócio na parceria do heliporto. No total, foram R$ 22,7 milhões.

De acordo informações fiscais de Limírio, o empresário tem dívidas com Walterci desde 2010. Ele declarou à Receita que, naquele ano, devia R$ 30 milhões ao dono da Teuto. Em 2011, reafirmou o débito, mas nada citou sobre os R$ 22,7 milhões recebidos naquele ano. O patrimônio de Limírio, outro amigo de Cachoeira, era de R$ 933 milhões no ano passado.

Processo

De Miami, nos Estados Unidos, Walterci avisou ao Congresso em Foco que não comentaria o assunto. O advogado de Cachoeira, Nabor Bulhões, disse que não pôde analisar o caso. Limírio está em Varsóvia, na Polônia, e não foi localizado por seu advogado, Djalma Rezende, e seus assessores. O defensor do empresário afirmou não ter autorização para fornecer o correio eletrônico de Limírio.

Ex-tesoureiro da campanha de Perillo em 2010, Rincón foi indiciado pelo relator da CPI do Cachoeira, deputado Odair Cunha (PT-MG). Ele disse ao site que vai processar o deputado petista.

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