Brasileiros abrem mão de poupar e preferem pagar juros no cheque especial

Com a inflação superando o rendimento de todas as aplicações financeiras, é grande a tentação de continuar consumindo em vez de direcionar parcela dos salário para formar uma reserva.

Os mais de 30 milhões de brasileiros que foram incorporados à classe média nos últimos oito anos e puderam comprar seu primeiro carro, dar entrada na casa própria e investir em educação têm, agora, um novo desafio: o de economizar.

Com a inflação superando o rendimento de todas as aplicações financeiras, é grande a tentação de continuar consumindo em vez de direcionar parcela dos salário para formar uma reserva.

Muitos preferem abrir mão do ganho de 0,5% ao mês pago pela tradicional caderneta de poupança, sob a alegação de ser um retorno baixo, mas aceitam pagar juros de 10% ao mês no cheque especial e no cartão de crédito. Resultado, nunca estão preparados para despesas de emergência.

Não é preciso, porém, ser especialista em economia para seguir um importante conselho dos especialistas: juntar um dinheirinho é sempre bom para que se possa planejar melhor o futuro.

O Brasil mudou, com a ascensão dos mais pobres à classe média, mas continua valendo a máxima repetida por gerações: “Quem poupa tem”. Felizmente, uma parcela da população já demonstra preocupação em ter um colchão que amorteça qualquer dificuldade ou que assegure sonhos, como uma aposentadoria mais confortável.

É o caso da produtora de vídeo Raquel Magalhães, 26 anos. “Meus pais são gastadores, contudo, eu e meu irmão não seguimos o exemplo”, diz ela, que optou pela precaução.

“Procuro ter sempre três meses de salário guardados para uma emergência.” A jovem dá uma dica a quem deseja começar a economizar: “É preciso se organizar. Pagar sempre à vista é uma boa maneira de reservar dinheiro. Eu mesma não tenho cheque especial. Se o dinheiro acabou, acabou e pronto”, acrescenta.

O conselho vale para muitos brasileiros, ainda com grande propensão ao consumo e ao endividamento. Tanto que as vendas no varejo cresceram 6,9% no primeiro trimestre do ano. “O desejo de consumo ainda é alto. O aumento de renda do brasileiro tende a se traduzir em mais compras”, afirma o analista da consultoria Tendências Alexandre Andrade.

Raquel reserva 10% do salário para a previdência privada e outros 15% para a aplicação em Certificado de Depósito Bancário (CDB), que usa a taxa básica de juros (Selic) como referência.

“Costumava transferir tudo para a caderneta, mas vi uma oportunidade diferente, que tem mais retorno”, conta. Segundo a consultoria Tendências, a captação da poupança, positiva em R$ 3,7 bilhões no primeiro quadrimestre do ano passado, ficou negativa em R$ 714 milhões nos meses equivalentes de 2011.

Os saques aconteceram por conta do movimento de alta da Selic pelo Banco Central, que aumentou a atratividade dos CDBs. Esses títulos atraíram R$ 23,6 bilhões entre janeiro e abril de 2010 contra R$ 2,1 bilhões em igual período deste ano.

Na bolsa de valores, que acumula perda de 8,76% no ano, houve diminuição de R$ 16,8 bilhões no volume negociado de janeiro a abril de 2011 ante o mesmo período de 2010. Já nos fundos de investimento, a captação positiva passou de R$ 28,8 bilhões para R$ 42,5 bilhões.

Nesse montante, estão incluídos planos de previdência, nos quais entraram R$ 7,3 bilhões, um sinal de que os brasileiros estão mais dedicados a planejar a aposentadoria. Outra modalidade de aplicação que vem atraindo a atenção — e o dinheiro — é o Tesouro Direto. Os aportes subiram de R$ 414,6 milhões no primeiro trimestre de 2010 para R$ 773,5 milhões no mesmo período de 2011.

 Aposentadoria

Por outro lado, com as compras em excesso, a situação de muitos brasileiros tornou-se preocupante: o calote cresceu 17,3% em abril na comparação com o mesmo mês de 2010. Foi a 12ª alta consecutiva, segundo a Serasa Experian. Muitos estão optando por uma vida menos espartana, mesmo que o custo seja o de ficar enrolado com as contas.

A securitária Andressa Katiely Clemente, 30 anos, diz que a inflação corrói seu poder aquisitivo e a impede de economizar. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) atingiu 6,51% nos últimos 12 meses, passando o teto da meta fixada pelo governo, de 6,5% em 2011.

“O preço dos produtos sobe de maneira abusiva, enquanto o salário fica estagnado. Com isso, todo o dinheiro vai para as contas”, argumenta Andressa. Para complementar a renda familiar, a securitária já incorporou o cheque especial ao salário, o que a coloca em uma bola de neve de dívidas: “Eu uso em um mês e no seguinte é descontado, então, preciso usar novamente”, lamenta.

O economista do Santander Cristiano Souza acredita que, a longo prazo, a redução da desigualdade de renda no Brasil deve surtir efeitos positivos sobre a formação de poupança. “Agora, as pessoas que não tinham acesso a bens estão comprando tudo o que podem. Quando a distribuição de renda se estabilizar em um patamar mais equânime, essas pessoas já terão comprado o que precisam e tendem a começar a juntar mais dinheiro”, vislumbra.

Mariana Mainenti – votebrasil.com

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