Brasil  

Brasil e Belindia, dois países iguais (mesmo em fábulas)

Por Paula Araujo – opiniaoenoticia.com.br

O termo “Belindia” atualmente pode significar nome de banda ou conto norte-americano, mas, em 1974, quando foi criada, a palavra era carregada de ideologia. Naquela época, o economista Edmar Bacha, considerado um dos “pais” do Plano Real, começava a respirar uma aparente liberdade, assim como toda a sociedade brasileira. No contexto econômico, profissionais debatiam a herança que a ditadura militar deixaria: arrocho salarial e concentração de renda. Na tentativa de ilustrar da melhor forma o paradoxo que a sociedade enfrentava, Bacha criou a fábula “Belindia”, figurando o nome de um país fictício com a mesma situação econômica em que se encontrava o Brasil na época. O nome vinha do fato de termos regiões com o padrão de vida equivalente ao da Bélgica, e outras parecidas com a Índia. Depois de ser publicada no livro “Participação, salário e voto. Um projeto de democracia para o Brasil”, de autoria do economista, a história apareceu no cenário federal várias vezes e hoje é tema de curso. Convidado pela “Casa do Saber”, Edmar Bacha ministrou a aula “E a Belindia, como vai?”.

As semelhanças entre o país fictício Belindia e o Brasil não foram feitas ao acaso. A desigualdade social os une mais do que se pode imaginar. A história de Bacha, também ex-presidente do IBGE, resume como o país distribuía – e ainda distribui – mal as suas riquezas. Na tentativa de mudar o ciclo vicioso de ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres, o rei de Belindia decidiu contratar um economista. O maior problema do sistema era que o índice medidor da riqueza por pessoa, o PIB (Produto Interno Bruto), continuava alto, mesmo com tanta miséria. Depois de estudar o país, o economista chegou a uma conclusão: medir o crescimento do PIB era algo puramente técnico, sem ética, em que as pessoas são representadas por sua renda.

O especialista pôde, no tempo em que prestou serviços ao reino, criar um relatório, utilizando-se de conceitos alternativos de crescimento. Conta a fábula que “o Rei compreendeu que o PIB era uma espécie de Felicitômetro dos Ricos. Incontinenti, mandou demitir seu conselheiro-mor para finanças, que de longa data lhe vinha afiançando que o PIB era uma medida exclusivamente técnica. E decretou à Fundação que calculava as contas nacionais do reino que doravante explicitasse as ponderações adotadas, utilizando os três conceitos alternativos de crescimento tal como apresentados no relatório do economista visitante. Desde estes acontecimentos o reino tem vivido dias mais felizes, pois, embora pobre, passou pelo menos a contar com medidas honestas de crescimento”. De uma forma bem-humorada, Edmar Bacha conseguiu resgatar um pensamento conhecido popularmente: ‘já não se fazem reis como antigamente’.

Trinta e seis anos depois da criação da história, o Brasil mudou bastante, mas ainda não se inventou fórmula para acabar com a desigualdade social, de acordo com o especialista. “Hoje, Belindia é utilidade pública e deve aparecer no dicionário.”

Com a evolução da democracia e o aumento da estabilidade econômica, o desafio da diminuição da pobreza ficou sob a responsabilidade de programas sociais. Atualmente, o “Bolsa Família” é uma das principais iniciativas do governo Lula. Segundo Edmar Bacha, o número da população pobre diminui a cada ano. “É inegável que essa melhoria permitiu a evolução dos indicadores sociais. Se comparado há 20 anos, o país melhorou bastante. O problema é se nos compararmos com o resto do mundo. Ainda temos um longo caminho a percorrer”, declarou Bacha. Apesar da evolução, os programas sociais ainda têm que descobrir um outro rumo a seguir. “Temos que pensar em capacitar as pessoas que fazem parte dos programas para que elas possam sair deles mais tarde”, disse Bacha.

À frente do BNDES durante o ano de 1995, o economista pôde opinar com propriedade sobre o contexto econômico brasileiro atual. De acordo com Bacha, o governo tem dinheiro para gastar, mas não sabe fazer isto da melhor forma. “Gastamos 10% do PIB com a previdência. Isto é o que gastam países muito mais ricos. O sistema previdenciário que montamos precisa ser flexibilizado com o tempo.”

A análise sobre a economia brasileira dos últimos 40 anos terminou com um pensamento voltado para o futuro: “a viabilidade da melhoria da sociedade vai se aproximar a partir do ponto que deixarmos de pensar em Belindia e começarmos a pensar no Brasil”.

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