Saúde  

Bactérias intestinais podem influenciar o humor

Estudos sugerem que bactérias instaladas nos intestinos podem afetar também o cérebro de um indivíduo, influenciando a sua conduta*

Um bom modo de se tornar malquisto em jantares é observar que uma pessoa típica, da perspectiva de um microbiólogo, é como um recipiente para a cultura de micróbios falante e semovente. Uma extraordinária profusão de criaturas microscópicas habita cada reentrância do humano comum; tantas que provavelmente superam em número a quantidade de células dos corpos nos quais vivem.

Felizmente, a maioria desses micróbios é inofensiva. Alguns deles, particularmente aqueles que vivem nos intestinos, trazem benefícios, ajudando na digestão e mantendo o metabolismo em ordem. Isto não é suspresa – bactérias, assim como pessoas, têm interesse em deixar suas casas em boas condições. O que surpreende é o pequeno, ainda que crescente, corpo de evidências que sugere que as bactérias instaladas nos intestinos podem afetar também o cérebro de um indivíduo, influenciando assim a sua conduta e humor. O mais recente estudo deste tópico, publicado nesta semana no Proceedings of the National Academy of Sciences, divulga o resultado de experimentos realizados em ratos.

Os pesquisadores, liderados por Javier Bravo da University College, dividiram em dois o seu grupo de roedores. Um grupo foi alimentado com um caldo especial contendo Lactobacillus rhamnosus, um tipo de bactéria que se instala no intestino geralmente encontrada em iogurte e outros laticínios. Ao outro grupo foi ministrada uma dieta comum, sem o complemento de micróbios.

Os pesquisadores então submeteram os ratos a uma bateria de testes geralmente usados para mensurar os estados emocionais dos animais. A maioria destes testes mostraram diferenças significantes entre os dois grupos.

Resultados

Um teste consistia num labirinto que continha túneis abertos e cobertos. Os pesquisadores observaram que os ratos turbinados com bactérias aventuravam-se pelos túneis abertos duas vezes mais do que os ratos do grupo de controle, o que foi visto como uma prova de que estes ratos eram mais confiantes e menos ansiosos do que aqueles não alimentados com Lactobacillus. Em outro teste, os animais foram postos a nadar num recipiente do qual não podiam escapar. Os ratos alimentados com bactérias tentaram nadar por mais tempo do que os outros antes de desistirem e terem de ser resgatados. Tal persistência é geralmente interpretada por estudiosos do comportamento de ratos como evidências de um humor mais positivo.

Medições diretas dos cérebros dos animais corroboraram os resultados comportamentais. Níveis de corticosterona, um hormônio relacionado ao estresse, eram sensivelmente mais baixos nos ratos alimentados com bactérias do que no grupo de controle quando ambos foram expostos a situações de tensão. O mais intrigante é que quando Bravo secionou o nervo vago (transmissor dos sinais entre o sistema digestivo e o cérebro) dos animais, a diferença entre os grupos desapareceu.

Tudo isso está forçando uma reavaliação das relações entre as pessoas e as bactérias que vivem nelas, que por muito tempo foram vistas apenas como potenciais fontes de infecções. Um editorial na Nature desta semana levanta a hipótese de que a prescrição generalizada de antibióticos – os quais matam tanto bactérias úteis como hostis – pode ser um fator por trás das ascendentes taxas de pessoas com asma, diabetes e síndrome da irritação estomacal.

*Texto traduzido e adaptado pelo Opinião e Notícia

 

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