Brasil  

Até quando!

 

Por Cristovam Buarque*

Durante o regime militar, alguns brasileiros se atreviam a denunciar no exterior a tortura que havia no Brasil. Por esse gesto eram acusados de ofensa ao país, até mesmo por democratas. Dom Helder Câmara foi um desses acusados. Dizia-se que roupa suja se lava aqui dentro e que era falta de patriotismo denunciar as torturas em terras estranhas.
Agora, algumas pessoas acusam um jornalista espanhol, radicado no Brasil, com família brasileira, que se sente brasileiro, de querer ofender o Brasil por publicar artigo no jornal El País, de Madrid, divulgando sua surpresa pela falta de indignação nacional diante da corrupção. Até 2002 alguns desses críticos eram arautos da moralidade, agora se indignam quando se fala contra a corrupção, ao invés de indignarem-se com a falta de indignação que tomou conta do país. No lugar de indignação contra a corrupção, dirigem a indignação contra o jornalista.
Não se pode dizer que a chegada de um partido de esquerda ao governo aumentou o número de corruptos no poder, mas pode-se afirmar que diminuiu, quase eliminou, o número de pessoas indignadas; e aumentou a tolerância, mesmo entre os que antes eram radicalmente contrários a corrupção.
O pai da corrupção é a impunidade, a mãe é a perda dos valores morais, das bandeiras de luta dos que fazem política. Sobretudo, a corrupção é fruto da tolerância com ela e seus atores e também da aceitação da imoralidade do abismo, como ao longo da história no Brasil, se distribui saúde e educação. Não se sabe se os partidos de esquerda perderam as bandeiras porque chegaram ao poder ou se chegaram ao poder porque ficaram sem bandeiras. O fato é que sem bandeiras, os partidos miram o poder como um fim em si mesmo; e a corrupção, mesmo que não seja praticado termina aceita como normal pelos que não são corruptos. Os políticos ficam divididos entre os que aceitam pagar pedágio para estar no poder e aqueles que recebem pedágio por ficar no poder. Os dois grupos aceitam o pedágio da corrupção como prática usual.
O artigo de Juan Arias é um marco na denúncia, mas não se transformará em um marco político se não despertarmos para fazer contra a corrupção o que fizemos contra a ditadura, graças as denúncias corajosas, como as de Dom Helder.
Nas ruas as coisas continuarão normais sem mobilizações, sem indignados gritando seu inconformismo, sem gestos corajosos como os da Dilma ao promover sua faxina. Gesto que, é preciso dizer, não tem recebido solidariedade firme dos partidos de sua base. Alguns temem a perda da governabilidade, outros temem a perda da chave do cofre. Um cenário pior do que o do regime militar, quando pelo menos alguns gritavam, lutavam e morriam na guerra contra a tortura, em defesa de uma nova constituição e da democracia.
Fica a impressão que Dilma agiu quase sozinha. Agora é hora de o Brasil apoiá-la, aliás como já fez, recentemente, o ex-presidente FHC e o próprio Arias ao diferenciá-la do quadro geral de tolerância, aceitação e falta de indignação com a “corrupção no comportamento de políticos”.
Isso para não falar da não percepção da “corrupção nas prioridades da política”, da tolerância com a desigualdade e o atraso social: um país com 41% da população sem água potável e esgoto, com escolas funcionando em pardieiros, obras paradas em 53 universidades e os estádios sendo construídos em ritmo de três turnos.

* Cristovam Buarque é professor da UnB e senador pelo PDT-DF.

 

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