As ligações perigosas de um governador ‘boa praça’

Por Claudio Carneiro – opiniaoenoticia.com.br

É inevitável não estranhar a sucessão de fatos ocorridos após o acidente de helicóptero do último fim de semana que matou mulheres, crianças e um piloto sem habilitação. 
 
Independentemente da grande tristeza que atingiu tantas famílias envolvidas no acidente de helicóptero do último fim de semana que matou mulheres, crianças e um piloto sem habilitação, é inevitável não estranhar a sucessão de fatos ocorridos a partir das 17 horas da última sexta-feira, 17. A sequência começa quando o governador do Rio de Janeiro embarcou no aeroporto Santos Dumont para a Bahia num jato Legacy de propriedade do empresário Eike Batista – um dos homens mais ricos do mundo e que doou R$ 750 mil para a campanha eleitoral de Sérgio Cabral em 2010. Não foi a primeira vez que Eike colocou sua frota à disposição de Cabral. O governador e o prefeito do Rio, Eduardo Paes – e suas respectivas esposas – viajaram a Copenhague numa aeronave do empresário, em 2009. (Comente aqui)

Desta vez, o governador e sua família iam passar um fim de semana junto com a família de um outro empresário, Fernando Cavendish, dono da Delta Engenharia, empreiteira que presta serviços ao estado em contratos que ultrapassam a casa do R$ 1 bilhão – muitos deles sem licitação. Cavendish aniversariava naquele dia. Estão nas mãos da empresa dele, por exemplo, a reforma do Maracanã e do Arco Rodoviário. Também é atribuída, pela revista Veja, ao aniversariante em dia nada festivo, a frase: “Com alguns milhões é possível comprar um senador”.

Cabral permaneceria fora de seu estado às vésperas de importante ocupação policial para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na favela da Mangueira. O local para o descanso escolhido seria o Jacumã Ocean Resort de propriedade de Marcelo Mattoso de Almeida – piloto de helicóptero com habilitação vencida desde 2005, ex-doleiro, acusado de fraude cambial e crime ambiental. O vice-governador, Luiz Fernando Pezão, estava na Itália.

A queda da aeronave, ocorrida por volta das 19 horas, provocou a tragédia que o país inteiro viu. Desesperado em acelerar as buscas, o governador ainda pensou em deslocar os bombeiros fluminenses para ajudar no resgate aos corpos. Deve ter sido alertado que tal iniciativa causaria mal estar aos bombeiros baianos e também lembrado que buscava socorro junto a profissionais que, ainda neste mês de junho, chamara de irresponsáveis e vândalos.

O corpo da namorada do filho do governador – Mariana Noleto, de 20 anos – foi transportado de Porto Seguro para a base Aérea do Galeão em avião da FAB. É duro dizer isso, mas talvez somente o governador – se tivesse morrido – teria direito a esse traslado em aeronave militar por conta da posição que ocupa. Cabe perguntar porque o governador não pagou do próprio bolso o traslado do corpo de Mariana.

Certamente arrasado com a tragédia, Sérgio Cabral, finalmente, retorna ao Rio de Janeiro em jato da empresa Líder, fretado pelo governo do estado – economizando mais alguns trocados de sua conta pessoal.   Abalado por todos estes tristes acontecimentos, o governador pediu licença e deve estar agora em sua cinematográfica mansão, no Condomínio Porto Bello, em Mangaratiba, avaliada em mais de R$ 4 milhões e comprada quando ele era deputado estadual, ganhando R$ 6 mil reais por mês. O então parlamentar – quando inquirido sobre o valor da casa – afirmava que ela valia somente R$ 200 mil.

Sempre muito simpático no trato com as pessoas – menos com os bombeiros – o governador deve explicações à sociedade, especialmente à fluminense. À mulher de César não basta ser honesta. Tem de parecer honesta. Ao marido de Adriana Ancelmo Cabral também cabe a mesma coisa.

Deixe um comentário