Agonia e êxtase do português

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

E a cada novidade que aparece, os ouvidos estremecem: pronto, lá vem mais um modismo para enterrar nosso idioma! Por Solange Noronha

A última ameaça chegou pela televisão, como muitas outras, e causou alarme: quer dizer que vamos deixar de “comprar” e passar a “fazer aquisições”? A “notícia” foi dada num telejornal da Rede Globo, onde alguns “hábitos” tiveram seu fim decretado — não sem agonizar durante um bom tempo. E a cada novidade que aparece, os ouvidos estremecem: pronto, lá vem mais um modismo para enterrar nosso idioma! A expressão da vez veio numa frase banal, sobre a dona de casa que “faz aquisição” de ovos na feira ou no mercado. Ou seja, esqueça a salmonela e o colesterol. O que está em risco não é a saúde do consumidor, é o verbo “comprar”!

Aliás, foi também na televisão que mataram o risco de vida — e, portanto, descobriram a fórmula da imortalidade! Ou então alguém me explique qual é a manchete em “fulano foi operado, mas ainda corre o risco de morrer” — pois este corremos todos, todos os dias — ou como eu posso pôr minha morte em risco — porque seria ótimo me livrar dela.

Falando em pôr, onde anda ele? Vai ver foi enterrado ao lado de “botar”, já que agora ninguém bota ou põe mais nada, só “coloca”. Mesmo assim, insisto com as galinhas: continuem pondo ou botando ovos, porque eu me recuso a “fazer aquisição” de ovos colocados…

É claro que a culpa não é apenas da imprensa e da TV. O pessoal do marketing — que adora inventar palavras desde que descobriu as dicionarizadas, e nem por isso menos horrorosas, habitabilidade, confortabilidade e afins — é outro grande vilão nessa história. E o da publicidade, surpreendentemente, está mais lá atrás. Afinal, qual é o mal de se criarem neologismos à moda da língua inglesa, que transforma tudo em ação? Assim, fazemos a higiene bucal com produtos cheios de “refrescância” e comemos — ainda que com certa dificuldade de engolir — chocolates com “crocância”. Mas talvez não estejamos prontos para criar um verbo “crocar” a partir da onomatopeia dos dentes quebrando um biscoito fresquinho, por exemplo.

Quando menos é mais

Exemplo, aliás, é o que a turma da Comunicação deveria dar a todos — a começar pelo básico: na dúvida, escolha o simples. A cada estagiário, seria entregue uma lista de sugestões, tais como:

— ninguém falece ou passa: morre. Deixe o passamento no século XX, fazendo companhia ao féretro, que anda tão só e esquecido, coitadinho;

— ninguém reside ou habita: mora. Ou, numa paquera, você pergunta a uma pessoa onde ela habita?;

— ninguém possui: tem. Alguém aí possui uma gripe ou um resfriado?;

— ninguém elucubra, divaga, exprime, enuncia, expõe etc. etc. etc.: Fulano diz. E ponto final. É melhor repetir do que arriscar um categórico “afirma” ou “declara”, às vezes muitos tons acima da fala do sujeito;

— um parente é sempre mais confiável que o globalizante “familiares”;

— prefira “usar” a “utilizar” — e faça bom uso destas informações, sem esquecer que fazer uso de algo é como lançar mão de um recurso, ou seja, não se “faz uso de” uma avenida para escapar de um engarrafamento e outros absurdos ouvidos por aí.

O importante é fazer o uso correto do Português, sem medo de parecer menos inteligente ou culto do que os amantes da “fala difícil” ou daqueles que acreditam que palavras longas são sinônimo de erudição.

Tamanho não é documento

Surpreendentemente, porém, há quem goste das polissilábicas e, ao mesmo tempo, odeie alguns grandes advérbios — inconstitucionalissimamente, pelo menos na minha infância, era tido como o maior vocábulo do idioma pátrio. Assim, pessoas capazes de achar que, com apenas uma letrinha a mais, “aonde” é mais chique que “onde” — obviamente, não sabem que uma não substitui a outra e que a primeira quer dizer “para onde” — podem ser avessas ao sufixo adverbial “-mente”, em especial quando associado ao adjetivo “independente”.

Independentemente disso, pior ainda é quem acha que “onde” cabe em qualquer lugar — e aí é um tal de escutar “aprendeu esta jogada com o técnico Beltrano, onde…”, “a patinadora foi treinada por Sicrano, onde…” e outros absurdos não exclusivos de locutores e comentaristas esportivos.

Palavra hoje tão em moda, diversidade combina maravilhosamente com a Língua Portuguesa. Use e abuse da variedade que o idioma oferece, evite modismos, fuja dos “nichos de mercado” e desconfie de quem tenta inventar regras “lógicas” para provar por A + B que certas expressões consagradas são incorretas: foi por culpa desses falsos eruditos que muitos jornalistas passaram a ter medo de dizer “risco de vida” na televisão e o nosso bom e velho Português fica a cada dia mais pobre.

Só para lembrar: “êxtase” também significa “temor reverente”. Dê uma olhadinha no Houaiss…

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