A sabedoria (nem sempre) vem com a velhice

Um estereótipo da sabedoria é a figura de um velho mestre zen sorrindo de maneira benevolente ao ver as travessuras de seus alunos, se referindo a eles como pequenos gafanhotos ou coisa parecida, seguros no conhecimento de que um dia eles também terão seguido o caminho que leva à maestria enrugada. Mas é verdade que a idade traz sabedoria? Um estudo de dois anos atrás na América do Norte, por Igor Grossmann, da Universidade de Waterloo, no Canadá, sugeriu que a afirmação é verdadeira. Na medida em que é possível quantificar a sabedoria, o Dr. Grossmann descobriu que os norte-americanos idosos tinham mais sabedoria do que os jovens. Ele, no entanto, agora estendeu sua investigação para a Ásia – terra dos envelhecidos mestres zen – e, em particular, para o Japão. Lá, encontrou, num contraste com o Ocidente, que os gafanhotos são equivalentes de seus mestres quase que desde o início.

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O estudo do Dr. Grossmann, publicado recentemente na Psychological Science, recrutou 186 japoneses de vários estilos de vida e os comparou com 225 norte-americanos. Os participantes foram convidados a ler uma série de artigos de jornal falsos. Metade descreveu conflitos entre grupos, como um debate entre os residentes de uma empobrecida ilha do Pacífico sobre a possibilidade de permitir que as empresas petrolíferas estrangeiras explorem seus recursos, após a descoberta de petróleo. (Aqueles a favor a consideravam uma oportunidade de ficar rico. Aqueles contrários temiam a ruptura com antigos estilos de vida e os possíveis danos ecológicos). A outra metade tomou a forma de colunas de conselhos que tratam de conflitos entre indivíduos: irmãos, amigos e cônjuges. Depois de ler cada artigo, os participantes foram perguntados “O que você acha que vai acontecer depois disso?” E “Por que você acha que vai acontecer desta maneira?” Suas respostas foram gravadas e transcritas.

Grossmann e seus colegas removeram as informações relacionadas à idade das transcrições, e também quaisquer indícios das nacionalidades dos participantes, e depois passaram as versões editadas para um grupo de assessores. Estes avaliadores foram treinados para classificar as respostas transcritas de forma consistente, e foram testados para mostrar que suas avaliações foram estatisticamente comparáveis ??entre si.

Os assessores marcaram as respostas dos participantes em uma escala entre um e três. Esta foi uma tentativa de capturar o grau em que se discutiu o que os psicólogos consideram os cinco aspectos cruciais do raciocínio sábio: o desejo de buscar oportunidades para resolver o conflito; vontade de procurar compromisso; reconhecimento dos limites do conhecimento pessoal; a consciência de que mais de uma perspectiva em um problema pode existir; e uma percepção do fato de que as coisas podem piorar antes de melhorar.

Metodologia

Um ponto em qualquer aspecto indicava que o participante não deu nenhuma consideração a ele. Dois pontos indicavam alguma consideração. Três pontos indicavam uma grande consideração. As pontuações de cada participante foram então somadas e transformadas matematicamente para criar um valor global dentro de uma gama de zero a cem, tanto para a sabedoria interpessoal, quanto para a sabedoria intergrupal.

O resultado foi que, como o Dr. Grossmann tinha descoberto antes, os norte-americanos se tornavam mais sábios com a idade. Sua pontuação média de sabedoria intergrupal foi de 45 para participantes com 25 anos, e de 55 para participantes com 75 anos. Sua pontuação interpessoal subiu de maneira semelhante, passando de 46 para 50. As pontuações dos japoneses, pelo contrário, dificilmente variaram com a idade. Tanto aqueles com 25, quanto os com 75 anos de idade, tinham uma sabedoria intergrupal média de 51. As pontuações na sabedoria interpessoal foram de 53 e 52.

À primeira vista, estes resultados sugerem que japoneses desenvolvem a sabedoria mais rapidamente que os norte-americanos. Mas eles também sugerem um paradoxo. Em geral, os Estados Unidos são vistos como uma sociedade individualista, enquanto o Japão é bastante coletivista. No entanto, os japoneses têm pontuações mais altas do que os norte-americanos para o tipo de sabedoria interpessoal que, em tese, seria útil em uma sociedade individualista. Os norte-americanos, por outro lado, pelo menos na maturidade da idade avançada têm mais sabedoria intergrupal do que os supostamente coletivistas japoneses. Talvez, então, você precise de habilidades individuais quando a sociedade é coletiva, e sociais quando ela é individualista. Tudo isso mostra que a verdadeira raiz da sabedoria é esta: não deduza, pequeno gafanhoto, que seus preconceitos estão corretos.

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

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