A pseudo-campanha Faça Cocô no Escuro

Por Renata Camargo – congressoemfoco.com.br 

O pindérico humor mundano nos vangloria a cada dia com pérolas mais ousadas. O sucesso na internet da pitoresca campanha Faça Xixi no Banho, da SOS Mata Atlântica, animou os engraçadinhos. Primeiro, surgiu a hilariante Faça Cocô no Banho, em resposta à campanha do xixi. Agora o jornalista e comediante Rafinha Bastos foi mais longe: lançou a campanha “Faça Cocô no Escuro”, segundo indica, um esforço para economizar energia elétrica.

Longe de ser algo sério, a mobilização se apresenta como mais uma empreitada humorística do comediante. Em vídeo de baixa qualidade postado no You Tube, Rafinha questiona se o internauta “está fazendo tudo o que pode para o meio ambiente”. A resposta, dada com um movimento de “não” com a cabeça, leva à escatológica sugestão ambiental: “Cague no escuro. Proteja a natureza”.

A pseudo-campanha de conscientização ambiental do integrante do programa CQC revela a criatividade do público em relação às mobilizações ecológicas e influencia na discussão sobre os rumos da educação ambiental. Será que preservar a natureza e colaborar para a sustentabilidade é somente fechar as torneiras e apagar as luzes?

Algumas campanhas têm como resultado efetivo mais o humor, do que propriamente a conscientização ambiental. O cômico vídeo da campanha nonsense das baratas, por exemplo, é uma dessas produções amadoras que deixam dúvidas quanto às intenções de seu produtor. Que contribuição terá esse vídeo como proposta de conscientização ambiental? Que é engraçado, isso é inegável.

Aliás, a contribuição do pum da vaca para o aquecimento global e o desmatamento decorrente da pecuária têm causado um rebuliço no mundo. O Brasil, como o maior exportador de carne vermelha, não tem gostado nada de campanhas como a Meat Free Monday (Segunda sem Carne), que já chegou ao país. Estrelada por figuras como o ex-Beatle Paul McCartney, a campanha propõe a redução no consumo de carne vermelha.

Mas duvidosa mesmo é a campanha do príncipe Charles da Inglaterra e seus colegas pela preservação das florestas tropicais. No vídeo que circula o mundo, celebridades como Daniel Crag, Robin Williams, Harrison Ford e Pelé aparecem numa campanha intensiva “tentando preservar as florestas tropicais para todos nós”. “Todos os anos, a destruição das florestas tropicais emite mais dióxido de carbono para a atmosfera do que todos os carros, aviões e navios juntos”, diz Príncipe Charles no vídeo.

O problema dessas pseudo-campanhas é que a conscientização ambiental acaba, de alguma maneira, deturpada. Alguns problemas ambientais são mais profundos e complexos do que esses ensaios querem mostrar. A destruição das florestas e a poluição de carros, por exemplo, não estão tão dissociadas assim como alguns locutores tentam transmitir. Mas, claro, que a questão não é deixar de fazer campanhas para que as pessoas evitem o desperdício de água, e sim abordar os fatores de maneira mais sistêmica, caminhando para uma mudança de paradigma.

É preciso inferir, por exemplo, que o enriquecimento da Inglaterra do passado tem tudo a ver com o processo de destruição da Amazônia no presente. Há muitos anos destruímos nossas florestas tropicais para produzir energia, alimentos e riqueza para consumidores de carros em todo o mundo. E de nada, ou em pouco, vai adiantar economizar água e energia a conta-gotas. O que precisa é mudar nosso modelo de desenvolvimento, afinal “seu consumo transforma o mundo”.

Renata Camargo – Formada em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), Renata Camargo é especialista em Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável pelo CDS/UnB. Já atuou como repórter nos jornais Correio Braziliense, CorreioWeb e Jornal do Brasil e como assessora de imprensa na Universidade de Brasília e Embaixada da Venezuela. Trabalha no Congresso em Foco desde 2008.

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