A omissão criminosa só mudou de endereço

Por Claudio Schamis – opiniaoenoticia.com.br

O Brasil foi dormir no domingo, e acordou outro na segunda-feira. Acordamos arrasados. Devastados. Estarrecidos. Órfãos.

Órfãos da possibilidade de acompanhar a vida de filhos, parentes, amigos. Órfãos de futuros pais de família, futuros agrônomos, médicos veterinários, pedagogos. Não importa. Jovens que morreram pela incompetência, ganância, omissão, negligência, descaso, corrupção, desrespeito. Jovens, diria eu, que foram assassinados.

A omissão criminosa só mudou de endereço. Ela é recorrente. E infelizmente, está presente na vida de todos nós e espalhada pelo Brasil. Do Oiapoque ao Chuí.

Poderia enumerar várias tragédias quase que anunciadas e o texto viraria quase que uma enciclopédia.

Não aguentamos mais. Não queremos mais. Não precisamos de mais.

O problema principal é simples, está escancarado. Todos veem, mas ninguém faz nada. Ficam passivos, esperando o pior acontecer. E acaba acontecendo. Ficam como se estivessem sentados num banco de praça vendo a banda passar. E aí depois culpam o sistema. Culpam a burocracia. Culpam a falta de uma assinatura. Só não culpam a si mesmos. Tem sempre um, “mas não é bem assim…” E então como é?

Quando aconteceu a tragédia no morro do Bumba em Niterói em 2010, todos já sabiam que casas estavam em local de risco. Fizeram o quê? Nada. Esperaram tudo vir abaixo para fazerem o quê? Nada novamente. Faltam verbas. É complicado. As pessoas não querem sair. Não querem sair porque o governo (ir)responsável, quer quando muito, colocar todo mundo no final da curva do fim do mundo, onde não há nada. E complicar a já complicada vida desses trabalhadores.

Achávamos que essa tragédia serviria de alerta, de aprendizado. Mas não, foi um choque. Uma comoção. E hoje é apenas uma estatística guardada no banco de dados da prefeitura. Tanto é que continuamos a ver casas em locais de risco até o dia em que uma nova enxurrada carregar todas elas. E aí aparecem prefeitos, governadores com cara de choro lamentando a tragédia e dizendo que providências serão tomadas. Só que o tempo para o governo tomar providências não é o mesmo tempo da necessidade de quem precisa. E isso é fato comprovado. Existem até hoje pessoas que foram desabrigadas em chuvas e depois de anos ainda esperam por suas casas.

Será que a tragédia de Santa Maria vai ser a última já anunciada antes de acontecer?

Essa nova tragédia que matou até o momento 235 jovens, pois outros 122 continuam internados, sendo destes 75 em estado crítico, acendeu mais uma vez uma questão. E aí?

Todos rezam para que seja usada como exemplo para um “Nunca Mais”. Mas não foi novidade. Tragédias semelhantes em outros países não serviram de nada. Vimos, lamentamos, e não se olhou para ver como estávamos lidando com isso. Afinal nunca achamos que vai acontecer. É a coisa do pensamento estúpido. A pessoa só pensa em colocar uma tranca, um alarme, uma grade, depois que acontece a primeira vez. Até quando vamos esperar acontecer, para fazer acontecer? Que pensamento estúpido é esse? De onde vem isso?

Está nos jornais: “Prefeitos agora fazem varredura em boates e casas noturnas”.  Não é exatamente o que eu disse? Depois é que eles agem. Isso é criminoso. É negligente.

Agora vai ser aquela corrida desenfreada de muita fiscalização, denúncias e tudo mais. Tanto que esse movimento já começou e já temos estabelecimentos fechados.  Mas até quando vai durar isso? Será que daqui a duas semanas a coisa vai ficando mais morna, o tempo vai passando, as pessoas vão se distraindo com outros assuntos, a fiscalização vai relaxando, e quando se olhar foi coisa de momento.

Vergonhoso isso.

Não podemos permitir mais isso. Se não existe número suficiente de fiscais, que providencie. Não usem a desculpa que foi por falta de pessoal que tantos morreram. Não vamos repetir o que já vimos em outros setores, como o da Saúde, onde se morre porque não tem leito, não tem médico, não tem ambulância. A criança não estuda porque não tem professor, não tem escola. Isso é conversinha para boi dormir. Não engulo isso. Nem se o Zagalo pedir. Não tem, faça!

Claro que temos que buscar os culpados. E não pode culpar só os sócios da boate Kiss. O buraco é mais embaixo. Há uma culpa coletiva e em várias esferas. Da prefeitura, passando pelos Bombeiros (no que se refere à falta de fiscalização) e chegando à esfera federal, pois o governo federal deveria cobrar isso também. Da mesma forma que fez com a Lei Seca. Mas, quantas pessoas precisam morrer para que se acenda o alerta de que isso não pode mais continuar assim? Afinal, o governo federal não é o “pai” de todos ? Não deveria estar olhando por nós?

Vir para cima de mim com o papo de que existe problema com verba, a coisa não vai prestar. Tem tanta coisa que se pode fazer. Pode-se adiar a troca dos móveis do Palácio, pode-se não dar o 14º e 15º salário aos vereadores no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, pode-se não trocar a frota de carros dos parlamentares, pode-se tomar vergonha na cara, pode-se tanta coisa… Mas será que realmente querem?

Foi muito digno a presidente Dilma ter voltado antes da sua viagem e ter ido direto ao local da tragédia. Ponto. Então, Dilma, use a sua emoção e suas lágrimas para fazer algo mais. Que use como plataforma de governo, para fazer decretos, para cobrar de verdade, que se faça o trabalho de casa. Afinal o mundo todo está olhando para nós. O mundo todo está sofrendo conosco. E com certeza devem estar se perguntando. Por quê?

Por que a nossa vida para as autoridades (in)competentes não é assim, digamos, um “produto” muito valorizado? O que nós somos para eles? Figurantes? Números? Estatísticas? Uma grande pessoa quando querem o seu voto? Lixo?

Nós não somos lixos.

Nós podemos mudar isso. Veja o que fizemos com o mensalão. Temos que nos tornar, de uma vez por todas, fiscais e cobradores, igual muitos foram “fiscais do Sarney” que denunciavam o abuso de preços naquela época de inflação galopante. Temos que ser os “fiscais da vida” de todos nós, já que não podemos contar inteiramente com os que deveriam zelar por nós.

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