A (minha) carta!

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Por Claudio Schamis
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Eu ia escrever para Papai Noel, mas dá no mesmo, então resolvi me dirigir à presidente: ‘Dilma, já que você não renuncia, eu me demito!’

Senhora Presidente, ‘Veritas temporis filia’. (a verdade é filha do tempo).

Por isso também lhe escrevo. Ou você acha que é só o Michel Temer que pode? Na verdade essa carta seria uma espécie de um pedido de demissão. Sim, apesar de estar desempregado, quero solicitar que você aceite meu pedido de demissão de cidadão brasileiro. Não dá mais. Acabou. Não tenho tempo de vida, apesar de todo o avanço tecnológico e da medicina, de esperar que o país se transforme no que poderia ter sido um dia e que nunca será. Vamos enfrentar a verdade. Lembra que ela é filha do tempo? Mas esse tempo é cruel, ele não perdoa, ele avança sem dar uma pausa. Preciso tentar ser feliz e viver bem sem esse peso de ser brasileiro. Hoje, convenhamos, é um fardo sacar o passaporte azul, que nem verde esperança é mais. Será um ato falho de vocês? Ou é a constatação de que a esperança, que deveria ser a última a morrer, morreu faz um tempo.

CARTAMuito a propósito do intenso noticiário sobre o pedido de impeachment, das manobras feitas pelo seu partido e aliados para atravancar o processo, do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, ter suspendido a instalação da Comissão Especial formada por uma maioria de oposicionistas do seu governo, que decidiria se o processo contra a senhora seguirá ou será arquivado.

Não consigo ser cidadão brasileiro vendo o Congresso virar um ringue de briga, com xingamentos, empurrões e quebra-quebra. Vendo os ratos tentando seus pactos, com promessas futuras. Brigas para que a votação fosse aberta ao invés de secreta. E sabemos que aberta é muito para um país onde seus políticos, em sua maioria, não mostra a cara. Na surdina nunca se sabe quem são seus amigos.

Desde logo lhe digo que quando Lula foi eleito meu mundo caiu. Mas ainda assim no

Minha carta à presidente

Minha carta à presidente

fundo da alma acreditava ainda que algo de bom estava por vir. Não veio. Aconteceu o pior, Lula foi reeleito. Mas eu ia tocando a vida. A inflação parecia controlada, mas eu nunca deixei de sentir um incômodo. O tempo passou e veio o mensalão. E o meu mal-estar em ser cidadão brasileiro se agravava.

Jamais eu disse que acreditava que alguma coisa pudesse mudar. Mudar requer um pouco de risco, talvez, mas no final das contas, a senhora foi reeleita, apesar de tudo.

E eu continuei aqui como cidadão brasileiro sobrevivendo a cada dia. Sobrevivendo sim e dançando conforme a música. Nem sempre dava para ouvir um clássico. Muitas vezes tive de fechar os olhos para não ver o funk que tocava.

Pois é, presidente. O seu próprio ministro Ricardo Berzoini, o seu articulador político, disse dias atrás “ou temos votos suficientes para vencer essa parada ou significa que o governo não tem base politica para se manter como governo”. Dilma, se seu próprio ministro tá falando isso… Qual então a parada?

Sou (ainda) cidadão brasileiro e a senhora resolveu ignorar-me como tal e está tendo ideias mirabolantes de como tirar mais dinheiro da gente aqui. Só porque você não foi capaz de segurar a sua compulsão em gastar mais do que poderia. E você não se fez de rogada. Seja com aumento de impostos diretos, seja com a sua ideia brilhante de recriar a CPMF, ou com o aumento de impostos indiretos como o Cide.

Se a senhora acha que não pode mais confiar em mim como cidadão brasileiro, eu posso adiantar que nunca confiei na senhora. Nem por um minuto sequer. Aquele seu papinho antes da eleição de que faria e aconteceria e que tudo seria cor de rosa não me tocou, não me comoveu. Muito pelo contrário, achei que você estava fora de si. E mesmo assim…

Sei que você cospe sempre que foi legitimamente eleita. Será mesmo? Durante o governo Lula e no seu governo vimos tantas coisas surreais que sabe que não sei o quão legítimo foi isso. Isso sem considerar como você custeou a sua campanha. São duas coisas distintas. Vai saber que num mundo tecnológico como o nosso não seria possível manipular uma urna eletrônica. Dinheiro para isso vocês arrumam. Se não foi ou fosse da Petrobras, tinha ainda a Eletrobras, o Banco do Brasil, o BNDES, a Caixa. Ou vai dizer que estou viajando? E você acha que dá para viajar com o dólar batendo os R$ 4,00?

Dilma, segundo o coordenador da força-tarefa da Operação Lava-Jato, o procurador Deltan Dallagnol, a PF só teve acesso a 10% das informações sobre as cercas de 300 contas na Suíça suspeitas de terem sido usadas no esquema. Eu sei que a senhora disse que não tem conta na Suíça, mas será que não tem mesmo? Talvez uma empresa da filha do seu motorista, ou uma tia sua. Isso pode ser coisa de tia.

Diferente do vice-presidente Michel Temer que acha que você o deixou como objeto decorativo nos seus primeiros quatro anos de governo, eu nem decorativo fui para você, então não me culpo por ter escrito essa carta. Ia escrever na verdade para Papai Noel, mas com certeza dá no mesmo, então resolvi me dirigir a você. Espero que a receba de peito aberto, mas não precisa marcar encontro depois comigo não.

Já que você divulgou a carta do Michel, então peço que publique a minha carta no Diário Oficial. E, por favor, acate meu pedido de demissão como cidadão brasileiro.

Salve as baleias. Não jogue lixo no chão. Não fume em ambientes fechados.

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