A fábrica de órfãos de Pequim

Política do filho único cria problemas que assolarão a China por décadas.

“Antes de 1997 eles costumavam nos punir, destruindo nossa casa por violar a política do filho único. Depois de 2000 eles começaram a confiscar nossos filhos”, diz Yuan Chaoren, um aldeão do condado de Longhui, na província de Hunan. De acordo com a revista Caixin, membros do governo recolhem “crianças ilegais” e as alojam em orfanatos onde elas são colocada para adoção. Pais adotivos estrangeiros pagam entre US$ 3 e 5 mil por criança, e os burocratas do governo ganham comissões.

O roubo de crianças não é parte oficial da política do filho único de Pequim, mas é uma consequência de regras que são uma verdadeira afronta aos direitos humanos de pais e candidatos a pais. A política destrói famílias e criam um desequilíbrio entre as gerações. Ela é tão odiada que sofre ataques polítocos até mesmo da China. Pela primeira vez na história, toda uma província, Guangdong, com uma população superior a 100 milhões de habitantes, exige isenções.

Uma jornada de mil quilômetros começa com um único passo

Membros do governo chinês são ferozmente leias à política do filho único, a qual atribuem todas as reduções de fertilidade e partos evitados: cerca de 400 milhões de pessoas, dizem eles, teriam nascido sem a política do filho único. No entanto, a fertilidade chinesa já vinha caindo há décadas, quando a política foi implementada, em 1979, e no resto do mundo, os índices de fertilidade já vinham caindo sem necessidade de coerção em vários países vizinhos, inclusive aqueles com grandes populações de chineses. A disseminação do controle da natalidade e o desejo por famílias menores tendem a acompanhar o crescimento econômico e o desenvolvimento em praticamente todos os países do mundo.

Mas a política certamente levou a fertilidade chinesa a níveis mais baixos dos que ela atingiria normalmente. Como consequência, a China tem uma das proporções de “dependência” mais baixas do planeta, com cerca de três adultos economicamente ativos para cada criança ou idoso. O país agora tem um número baixo de jovens, e cerca de oito pessoas em idade de trabalho para cada pessoa acima dos 65 anos. Em 2050 essa proporção será de apenas 2,2. O Japão, hoje o país mais velho do planeta tem 2,6. A China está envelhecendo antes de enriquecer.

As distorções da política também contribuíram para outras características horríveis da vida familiar, em especial, a prática de abortos de fetos femininos para garantir que o único filho seja um homem. A política do filho único não é a única causa, como mostra a Índia, mas contribuiu para esse cenário. Em 20 anos não haverão noivas suficientes na China para um quinto dos meninos de hoje – o que certamente irá gerar problemas. E ainda que a política do filho único não tenha feito nada para reduzir o número de partos, a infinita repetição de slogans como “mais um bebê significa mais um túmulo” ajudaria a tornar o filho único uma norma social, levando os índices de fertilidade a níveis abaixo dos quais a população se reproduz sozinha. A China pode se ver condenada à baixa fertilidade por um bom tempo.

A demografia leva décadas para ser revertida, e se mostrará um dos piores problemas da China. A velha liderança está ligada à política do filho único, mas a nova, que assume o comando no ano que vem, pode renovar as ideias, e tem o poder de acabar com esse cenário absurdo assim que assumir o poder.

Fonte: opiniaoenoticia.com.br

 

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