A demissão do ministro e a vergonha

Por Claudio Carneiro – opiniaoenoticia.com.br

Vergonha, culpa e embaraço se baseiam na consciência da desgraça e desonra como forma de controle judicial, político, religioso e social.

Em algum lugar da História, ou do passado, o constrangimento deixou de ser um sentimento característico da cultura brasileira e, especialmente, de sua vida pública. Se um dia fomos o país dos sem-camisa, dos sem-dentes, hoje somos – quem sabe – um povo que perdeu a vergonha.

Culpa e vergonha estão presentes, com grande intensidade, em várias culturas. Executivos e políticos japoneses, por exemplo, cumprem penitência pública diante do menor desvio de conduta. Em 2007, o ministro da Agricultura, Florestas e Pesca do Japão, Toshikatsu Matsuoka, se suicidou após ter sido envolvido em um escândalo por suposta malversação de fundos públicos. Em Crime e Castigo, Dostoievski conta a saga de Raskólnikov. O assassino sente grande culpa pelo crime que cometeu. Ao confessar, desvenda um mistério que a polícia não conseguira resolver e livra-se da grande culpa que carregava.

Com suas cores sombrias, o pintor espanhol Francisco Goya pôs de costas o personagem que se envergonhava “Por haber nacido en otra parte”. E mesmo no Brasil, há exatos 81 anos, o deputado Adolfo Bergamini teve sua carreira política prejudicada por denúncias de corrupção. Hoje, circularia com desenvoltura pelo Congresso Nacional.

A classe política brasileira – como um todo — perde, primeiro, a vergonha. O cargo se perde depois. Mas isso só ocorre com alguns. O ex-ministro dos Esportes Orlando Silva, por exemplo, negava as acusações do PM João Dias. Mas era muito mais enfático ao dizer que não encontrariam provas contra ele. Devia se orgulhar muito por não deixar rastros. Silva entra para a lista de cinco ministros – Antonio Palocci (Casa Civil), Pedro Novais (Turismo), Wagner Rossi (Agricultura) e Alfredo Nascimento (Transportes) são os outros – que foram “saídos” do Governo por denúncias de irregularidades. Todos disseram que aproveitariam o afastamento para provar a inocência. Não se tem notícias de que as investigações tenham avançado. Uma vergonha.

Quem não se constrange diante da desonra sofre de alguma patologia. No livro O crisântemo e a espada, Ruth Benedict identifica a cultura da vergonha – presente no povo japonês – “que se impõe por uma forte identificação entre ponderação e dignidade, além das sanções externas que ratificam a honra e a dignidade individuais”. Já a cultura da culpa – e dá como exemplo os Estados Unidos – “asseguraria a retidão do comportamento pela interiorização de uma ideia de pecado e reação à crítica dos demais, uma plateia que julga e avalia”.

Por mais estranho que se possa supor, parece que o senador Fernando Collor perdeu muitas coisas – o cargo de presidente e os direitos políticos por oito anos – desde o impeachment, mas manteve a vergonha. Que outro sentimento explicaria seu esforço hercúleo em defender o sigilo eterno de documentos públicos? Collor acabou derrotado – mais uma vez – há poucos dias e o prazo máximo para que as informações do Governo sejam mantidas em sigilo será de 50 anos. Vivamos todos, nós e ele (com um “L” só) para sabermos os segredos que marcaram aqueles dias de desgoverno no início dos anos 90.

Já o presidente do Senado não carrega o sentimento no helicóptero da PM do Maranhão que utiliza em seus passeios à ilha em Cururupu onde tem uma casa. Flagrado no erro – ao lado um empresário que tem contratos milionários naquele estado – José Sarney afirmou, sem qualquer pudor, que o gesto era “uma vitória da democracia”.

Muitos estudos se fizeram sobre vergonha, culpa e embaraço como reguladores da moral. Um conjunto de ideias e comportamentos – baseados na consciência de desgraça, desonra como forma de controle judicial, político, religioso e social. O respeitado educador e terapeuta norte-americano John Bradshaw classifica a vergonha como a “emoção que nos deixa saber que somos finitos”. Filho de pai alcoólatra, ele teve essa noção ainda criança.

A patologia brasileira é que os que detêm o poder – seja ele econômico ou político – se “desresponsabilizam” por um ato desonroso. Cabe a nós o amargo sentimento de “vergonha alheia”.

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