A censura não existe, mas vem de todos os lados

Alguns acreditam que a censura no Brasil esteja morta e enterrada pela Constituição de 1988. Este estranho hábito de usar a tesoura e decidir o que os outros podem ler, assistir ou consumir já teve seus tempos áureos – se é que podemos compará-los com o ouro – nos anos de chumbo, mas ainda persiste em episódios cada vez mais frequentes de nosso cotidiano.

A censura teve sua “musa” no período mais triste da ditadura militar.  Solange Teixeira Hernandes aparecia antes de cada programa de televisão ou filme, com carimbo e assinatura, liberando ou proibindo a exibição de milhares de obras intelectuais. A chefe da Divisão de Censura de Diversões Públicas era uma campeã de audiência entre 1980 e 1984 e comandava 279 funcionários espalhados pelo país. Logo que deixou o cargo, substituída por Coreolano de Loyola Cabral Fagundes, o nome dela foi também o mais ouvido no rádio quando Leo Jaime teve a ideia de fazer a versão brasileira de “So lonely” – do The Police – com a debochada, e não casual, “Solange”.

Hoje uma senhorinha septuagenária, Solange Hernandes vive em Ribeirão Preto – a exatos 715 quilômetros de Brasília – e atende pelo nome de solteira, Solange Maria Chaves Teixeira. Ela nunca fala com a imprensa e nem entrou pro Guiness: embora tenha vetado 1.168 letras de música. Assim como o ex-presidente João Figueiredo que pronunciou a famosa “Quero que me esqueçam”, Solange deve desejar o mesmo todos os dias.

Ocorre que recentes episódios sempre nos trazem a censura – e a censora de volta. O Opinião e Notícia pode falar à vontade das investigações da Polícia Federal sobre a suspeitíssima Operação Faktor – ou Boi Barrica – que envolveu o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José idem.  Já o jornal O Estado de São Paulo e seu portal Estadão estão impedidos por determinação do Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Um pedido do senador ao desembargador Dácio Vieira acabou “censurando” o jornalão e aplicando multa de R$ 150 mil por matéria publicada sobre o assunto ou por “violação do comando judicial” – como prefere o magistrado.

Por causa de uma calcinha, Iriny Lopes – é preciso que a apresente – ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, representou contra o anunciante Hope por utilizar a escultural Gisele Bündchen – que dispensa apresentações – numa campanha de publicidade. Até o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) – que tem exacerbado o seu poder de somente regulamentar – surpreendeu ao não penalizar o anúncio. Depois de dizer que o filme “promove o reforço do estereótipo equivocado da mulher como mero objeto sexual de seu marido e ignora os grandes avanços que temos alcançado para desconstruir práticas e pensamentos sexistas”, dona Iriny encerrou sua demanda com a frase: “No caso Gisele, a censurada fui eu”. E a Hope agradece o arroubo ministerial: nunca vendeu tanta calcinha!

Mais que infeliz ao fazer comentário sobre a cantora Wanessa Camargo e o filho dela que sequer nasceu ainda, o humorista Rafinha Bastos foi afastado da bancada do programa CQC pela direção da TV Bandeirantes. Ofendida, a artista entrou com ação por danos morais e um pedido de indenização de R$ 100 mil. Até aí nada de mais. O que assusta é que tenha sido Ronaldo Fenômeno quem pediu o afastamento do boquirroto apresentador.

O ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho defende um projeto de regulação da mídia – garranchado pelo PT – e afirma que veículos de comunicação sérios não têm motivos para temer o assunto. Ou é amigo do Sarney ou não sabe o que aconteceu com o Estadão – ou os dois. E mais, se considerarmos que 271 políticos brasileiros são donos de emissoras de rádio ou de TV, fica muito difícil definir o que é um “veículo sério” pra Carvalho.

Por Claudio Carneiro – opiniaoenoticia.com.br

Numa sociedade que se propõe democrática, não são necessários tantos mecanismos de controle – ou censura – principalmente vindos de sarneys, ronaldos e irinys travestidos de solanges. O cidadão/consumidor/espectador/eleitor tem no controle remoto e no voto eletrônico, por exemplo, a ferramenta de escolha tirando do Governo, dos partidos, dos políticos e dos que se julgam poderosos o ímpeto de fazer valer suas próprias vontades. Alegar a melhor das intenções para ressuscitar o pior é o que merece censura.

Deixe um comentário