Brasil  

A ascensão de Silas Malafaia

Por Simon Romero*
Fonte: opiniaoenoticia.com.br

Pastor televisivo se transforma na voz da direita evangélica brasileira em sua cruzada contra o casamento gay, o aborto e a legalização da maconha.

Os livros de Silas Malafaia, que venderam milhões de exemplares no Brasil, têm títulos como Como Vencer as Estratégias de Satanás e Lições de um Vencedor, e o jato no qual ele voa, tem “Favor de Deus”, escrito na sua fuselagem. Como pastor televisivo, Malafaia atinge espectadores em dezenas de países, incluindo os Estados Unidos. Por mais de 30 anos, ele vem comandando prósperas igrejas e empresas ligadas à sua pregação pentecostal.

Ainda assim, ele poderia ter atraído pouca atenção fora de sua congregação, se não tivesse se aventurado na versão brasileira das guerras culturais. Afinal, o Brasil tem líderes evangélicos que comandam grandes impérios, como Edir Macedo, dono da Igreja Universal do Reino de Deus e da Rede Record. Outros, como RR Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus, são conhecidos por seu trabalho missionário.

Mas foi Malafaia que atraiu atenção recentemente, com seus poderosos ataques verbais contra o movimento brasileiro pelos direitos dos gays, os defensores da legalização do aborto e aqueles que defendem a descriminalização da maconha.

“Sou o inimigo público nº 1 do movimento gay no Brasil”, declarou Malafaia em uma entrevista em Fortaleza, onde o pastor realiza uma de suas “cruzadas”, um evento que mistura textos bíblicos e canções, para um público de cerca de 200 mil pessoas. Lágrimas rolavam pelo rosto dos fiéis, enquanto muitos dançavam ao som da performance de abertura.

Antes de subir ao púlpito, ele descreveu como passou a ser procurado pelos talk shows televisivos sempre que a questão do direito dos gays é levantada. Mas essa é apenas uma pequena parte de seu repertório, e a televisão é apenas um dos muitos veículos à sua disposição. No Twitter, o pastor tem quase 250 mil seguidores, e em seus vídeos no YouTube, ele ataca não apenas seus inimigos liberais, mas também líderes evangélicos rivais.

Não é surpresa, portanto, que sua ascensão tenha feito dele uma fonte tanto de admiração quanto de apreensão. Ele mobilizou milhares de fiéis em uma marcha a Brasília, contra a criminalização da homofobia.

Evangélicos na política

A elite brasileira ainda tenta entender o crescimento de uma figura tão polarizadora, e sua possível influência na política nacional. A revista Piauí publicou um longo artigo sobre a ascensão de Malafaia da obscuridade no Rio de Janeiro, onde ele cresceu numa família militar, ao poder que ele agora tem em mãos.
Além de Malafaia, o crescimento no número de religiões evangélicas, em especial, o pentecostalismo, nas últimas décadas, tem alterado a política brasileira. Antes de tomar qualquer decisão, os líderes em Brasília agora devem consultar a bancada evangélica, que tem uma resiliente influência no Congresso.

Cerca de um quarto dos brasileiros pertence a alguma congregação evangélica, e os pentecostais como Malafaia são os principais nomes desse crescimento. Numa impressionante transformação religiosa, especialistas dizem que embora o Brasil ainda mantenha o maior número de católicos do planeta, agora o país tem uma população pentecostal semelhante a dos Estados Unidos.

Nem todos no país estão contentes com essa mudança.

Num artigo em novembro, a jornalista Eliane Brum escreveu sobre a intolerância demonstrada contra os ateus no Brasil por parte dos evangélicos, descrevendo o que ela chamou de “uma disputa cada vez mais agressiva pela fatia de mercado” entre as grandes igrejas.

O artigo recebeu uma onde de reações por parte das igrejas pentecostais, e as declarações de Malafaia as mais cáusticas. Durante a entrevista ele se referiu à jornalista como uma “vagabunda” (ele se desculpou posteriormente), e afirmou que “ateus comunistas” na União Soviética, no Camboja e no Vietnã foram responsáveis por mais mortes que “qualquer guerra motivada pela religião”.

Apesar de sua enorme visibilidade, Silas Malafaia afirma que não tem ambições políticas, porque elas o confinariam a um partido político, o que seria uma limitação para sua exposição. “Deus me convocou para ser um pastor, e não trocarei isso pela política”.

Mas a influência política é um assunto diferente. Malafaia afirma que votou em Lula duas vezes, e que teve acesso aos corredores do poder em Brasília. Ele diz ter recebido uma ligação da atual presidente, Dilma Rousseff, durante a campanha, em busca de apoio político, que ele negou.

“Disse a ela que não tinha nada contra ela pessoalmente, e que a considerava uma mulher inteligente e qualificada. Mas como poderia apoiar a Dilma se passei quatro anos brigando com um grupo do partido dela que quer fazer leis beneficiando os gays?”

Tanto Malafaia, quanto sua esposa, Elizete, são formados em psicologia, e um tema comum em seus sermões é o sucesso e as formas de obtê-lo. Embora afirme que vive de maneira relativamente humilde, ele não se desculpa por seu crescimento material, e chega até mesmo a celebrá-lo, desfilando numa Mercedes, que ele afirma ter sido “um presente de um amigo rico”. O jato, diz ele, foi adquirido de segunda mão nos Estados Unidos, não por ele, mas sim por sua organização sem fins lucrativos, e por um preço razoável.

Segundo ele, os líderes evangélicos do Brasil são vítimas de um sistema de “dois pesos e duas medidas”. “O papa voa num jumbo da Alitalia. Mas se um pastor voa num jato velho, ele é considerado um ladrão”, diz.

* Chefe do departamento brasileiro do New York Times

Deixe um comentário