As mil possibilidades de entrar no banheiro errado e culpar a sinalização da porta

O atendimento do garçom é ótimo. O prato e o vinho harmonizam plenamente. A conversa está fluindo, a companhia é agradável, inteligente, e a noite promete. Você se levanta para ir ao banheiro e começa o drama. O que diz aquela plaquinha pendurada na porta? Em qual delas devo entrar? Nesse momento, o cliente descobre que nem tudo é perfeito. A sinalização simplesmente não deixa claro qual é o banheiro feminino e qual é o masculino. Quem nunca passou por isso — é sintomático — frequenta a noite menos do que devia. É um drama, embora quase insignificante, pelo qual todo mundo já deve ter passado pelo menos uma vez na vida. Nem que seja para contar para os amigos e amigas no dia seguinte.

No restaurante Outback, por exemplo, é importante saber que Bloke é uma gíria usada praticamente por toda a Commonwealth para designar o homem. Da mesma forma – e no mesmo âmbito – que Sheila se refere à mulher. É como se aqui usássemos nos toaletes o clássico João & Maria ou ainda, o debochado – e já fora de moda – Patricinhas e Mauricinhos.  A sinalização bem que poderia ser menos redundante que um desprezível aviso de WC e ao mesmo tempo muito mais criativa do que os óbvios Homem e Mulher, Ele e Ela, His & Hers, H e M, Damas e Cavalheiros que habitam milhões de portinhas desse Brasilzão de meu Deus.  Valem também a cartola e luvas para os barbados ou o chapéu feminino e salto alto e fino das moçoilas que frequentam o La Mole.

Pode parecer banal mas uma triunfal entrada em banheiro errado pode causar transtornos e necessárias desculpas e explicações. Talvez por esse motivo, a Universidade Paulista (Unip) tenha a cadeira Sinalização e Mídia Exterior no curso de Comunicação Digital. Ali, a professora e diretora Silvia Zampar provocou seus alunos na busca pela porta certa. Em algumas edições do curso, eles tiveram como trabalho a criação de sinalizações para os dois gêneros mais comuns do amplo, colorido e multiforme espectro sexual. Muito justo. Se tivessem que contemplar todas as nuances, restaurantes e bares deveriam dispor de, pelo menos, umas sete portas – o que em alguns casos ultrapassaria o número de mesas. Ou, quem sabe até, o de clientes.

Publicitária com mestrado em Comunicação Midiática, ela lembra que sinalização – seja de trânsito ou de banheiro – tem o objetivo de orientar e informar suprindo a necessidade de alguém para fazê-lo. “Temos que considerar que existe uma timidez das pessoas de perguntarem onde fica o banheiro ou – pior ainda – quando a sinalização é mal feita, em qual banheiro devo entrar”, observa.

Silvia ensina que a sinalização pode ser criativa, mas, acima de tudo, deve ser clara e orientar corretamente, evitando constrangimentos dos usuários. “Alguns estabelecimentos têm em mente que sua linguagem — usada por algum tipo de público específico, ou no país de origem da franquia — é tão conhecida que utilizam coisas estranhas, palavras que não podem ser identificadas, enfim, criam uma sinalização “ilegível” e que não serve para o propósito primário”, avalia. Outros são “criativos demais” e não enxergam que o excesso só atrapalha.

A professora acha que a sinalização não é algo simples como alguns imaginam e exige dedicação para unir criatividade, bom gosto e informação: “Existe a necessidade de mercado em habilitar profissionais também para esses trabalhos”, ressalta. Ela lamenta que não exista no Brasil literatura sobre o assunto. “Eu diria que os estudos ainda engatinham sobre esse tema”.

 

 

Banheiro do restaurante Oui Oui- Humaitá- RJ

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Banheiro do restaurante Antiquários- Leblon- RJ

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Banheiro do restaurante Antiquários- Leblon- RJ

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Banheiro dos baralhos é de Gustavo Alulas – da Unip de Jundiaí

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Banheiro dos super-heróis é de Kislen Medina – da Unip de Campinas

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Banheiro Clube Náutico em Caldas Novas (GO)

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Banheiro Clube Náutico em Caldas Novas (GO)

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Banheiro Adega do Porto- Jardim Botânico- RJ

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