‘República do Salto Alto’

O apelido dado ao novo triunvirato de Brasília pode carregar velado uma boa dose de preconceito.

Por Roberta Cabral – opiniaoenoticia.com.br

Pela primeira vez na história do Brasil, três mulheres ocupam alguns dos mais altos cargos do Poder Executivo: a presidente da República Dilma Roussef, a ministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann e a ministra das Relações Institucionais Ideli Salvatti. Independente de apoiarmos ou não o governo do PT, são inegáveis as conquistas culturais que possibilitaram que estes postos de poder sejam hoje ocupados por mulheres. (Comente aqui)

Somente em 1932 as mulheres brasileiras ganharam o direito ao voto e puderam se candidatar a cargos políticos. Em 1933, a dra. Carlota Pereira de Queirós se tornou a primeira deputada federal do país. A primeira senadora, Eunice Michiles, foi eleita em 1979. De 1982 a 1985, Esther de Figueiredo Ferraz foi ministra de Educação e Cultura, primeira mulher a ocupar este cargo. Maria Pio de Abreu foi a primeira candidata à presidência da República, em 1989. Roseana Sarney foi eleita em 1995 a primeira governadora. Esta longa trajetória culminou com a eleição de Dilma Roussef para presidente do Brasil. Ainda que muitas das mulheres que trilharam o caminho político o tenham feito à sombra de maridos, pais ou tutores, a confiança da sociedade em entregar seu voto a uma mulher e com isso validar a capacidade de uma pessoa, independente de sexo, de representar essa sociedade é uma evolução que deve ser reconhecida.

É com este espírito de renovação que as novas ministras tomam o poder. Tanto Hoffmann quanto Salvatti têm base familiar e política em Santa Catarina, são integrantes do PT há muitos anos, possuem formação acadêmica e um currículo profissional fortemente associado ao partido. No entanto, apesar de haver tanto a ser debatido e esperado do trabalho destas mulheres, é interessante observar como analistas e imprensa têm reforçado suas características femininas.

“República de Salto Alto” é como está sendo chamado o triunvirato feminino de Brasília. A expressão é forte e engraçada, mas pode carregar velada uma dose de preconceito, como se à espreita estivesse o país machista e retrógrado que aos poucos temos deixado pra trás, à espera das travessuras que essas senhorinhas possam fazer com tanto poder assim.

Hoje o bordão nas colunas é exaltar o “gênio difícil” das três executivas e a fama de mandonas que elas têm. Como se uma mulher não pudesse simplesmente ser assertiva e exigente no trabalho, sem receber em troca uma lista de adjetivos pejorativos. Se fossem homens, seria relevante que tivessem “personalidade forte”? Ou esta faceta estaria naturalmente associada ao jogo de poder, até bem pouco tempo atrás jogado exclusivamente pelos homens?

O apelido de “Loura” – que diz-se foi dado por Dilma a Gleisi Hoffmann – é destacado em várias matérias, sem agregar informação com isso ao conteúdo, apenas ressaltando uma característica física da nova ministra, num país em que ser loura pode significar ser sexy ou ser burra, ou apenas ter cabelos claros. Os terninhos de costureira, o topete a la Carolina Herrera e a maquiagem da presidente Dilma já foram sucesso de público há meses. Infelizmente, o mesmo tratamento não é dado à calvície de José Dirceu, à tintura de cabelo de José Sarney ou ao anacronismo da franja e bigode do agora ministro da Pesca Luiz Sérgio. Seria no mínimo engraçado, além de justo, justíssimo.

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